Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Antonio, o Breve

Se a importância de uma era é medida pela densidade de seus eventos, é assim que historiadores poderão ver o chanceler Patriota, avalia professor

Dawisson Belém Lopes,

15 de junho de 2013 | 16h00

Jovem brilhante, talvez o melhor da sua geração. Oriundo de família de diplomatas, com formação sólida e consistência acadêmica, estava habituado às sutilezas da Casa de Rio Branco. Antonio Patriota trazia a vocação para o ofício no próprio nome. Foi embaixador aos 50. Chefiou a missão do Brasil em Washington e, na sequência, tornou-se secretário-geral do Itamaraty - a mais alta posição da carreira.

Bem-visto pela corporação diplomática e por seu antecessor no cargo, Celso Amorim, logo obteve a indicação da mandatária da nação para ser o chanceler. Fazia-se justiça a uma trajetória impecável do ponto de vista do mérito técnico.

Seria o líder de um ministério em ascensão, prestigiado pelo ex-presidente Lula e absolutamente instrumental para a inserção do Brasil no mundo globalizado. Até a sociedade civil, tradicionalmente desatenta aos aspectos internacionais, começava a mobilizar-se e a politizar agendas pertinentes à pasta do exterior.

Parecia o cenário ideal para a consagração de Patriota. Tinha tudo para dar certo. Mas foi aí que os seus problemas começaram...

De saída, o ministro foi anunciado como a boa nova. Movido por um plano de "suave correção de rumos", ele acolhia em parte as reivindicações de determinados segmentos sociais por uma diplomacia mais convencional. Acenou com a reaproximação com os Estados Unidos e condenou as violações de direitos humanos no Irã, relegando para segundo plano as bandeiras da reforma do Conselho de Segurança da ONU e do regionalismo pós-liberal na América do Sul. O elemento de contestação à ordem mundial, presente na gestão "ativa e altiva" de Amorim, diluiu-se.

Pouco a pouco, foi se tornando evidente que Dilma não era Lula. A diplomacia presidencial da nova incumbente, por desinteresse ou inaptidão, recuou. Além disso, o recomendável entrosamento entre chefe de Estado e chanceler nunca houve. Nos temas econômicos da política externa, Guido Mantega e Fernando Pimentel fizeram-se porta-vozes da Presidência; nas questões de cunho político e social, Marco Aurélio Garcia e Gilberto Carvalho foram conselheiros preferenciais.

Vários enroscos diplomáticos do primeiro biênio de governo foram debitados à conta do ministro das Relações Exteriores, com destaque para a derrubada do aliado paraguaio Fernando Lugo. O entusiasmo da militância social e dos meios de imprensa com Patriota rapidamente arrefeceu.

Nos últimos meses, a situação piorou. O chanceler foi posto na alça de mira de diversos grupos de interesse e pressão. Todo mundo tirou uma casquinha: ambientalistas insatisfeitos com a condução da Rio+20, organizações de direitos humanos queixosas da leniência brasileira com ditadores sanguinários, editorialistas de cadernos de política com denúncias de malversação do recurso público. Justas ou não, as reclamações agora beiram o inusitado: até a torcida do Corinthians, depois da tragédia de Oruro e da detenção de alguns de seus membros, passou a apupar a chefia do Itamaraty.

As vitórias, quando aconteceram, foram pírricas. Patriota despendeu energia pelo reconhecimento da Palestina como membro observador na Assembleia-Geral da ONU - no que foi bem-sucedido -, mas não colheu benefícios palpáveis da empreitada. Em outra ocasião, o Brasil tentou fazer avançar, também no púlpito da ONU, o conceito de "responsabilidade ao proteger" para regulamentar as intervenções humanitárias. Inicialmente recepcionada com interesse pela comunidade das nações, a ideia foi desautorizada na prática, e tratada como um sintoma de que nosso país era relutante em assumir o fardo da condição de potência global.

Sintomática mas não surpreendentemente, a expressiva eleição do diplomata brasileiro Roberto Azevêdo à direção da Organização Mundial do Comércio foi tratada, pelo governo, mais como resultado do envolvimento pessoal da presidente da República - e menos como o fruto de uma longa e intrincada articulação diplomática, liderada pelo Ministério das Relações Exteriores.

O eclipse do Itamaraty é a consequência inevitável desse processo. Até o tradicionalíssimo concurso anual para recrutamento de diplomatas foi colocado em suspenso pela administração federal. Também dão conta desse achatamento político o contingenciamento das verbas para o ministério e a baixa frequência com que o ministro do Exterior despacha com a presidente da República.

Há quem diga que diplomata faz política de Estado e, portanto, estaria imune às contingências do governo. Penso que, numa democracia contemporânea, não poderia existir maior equívoco de interpretação - e Antonio Patriota dá vivo testemunho disso. Sua natural aversão aos jogos políticos lhe dá um indefectível ar de chefe interino: sem força, sem perspectiva e, miseravelmente, sem legado.

Se a importância de uma era é medida pela densidade dos seus eventos, a impressão é de que os historiadores poderão tratar o ministro, num futuro não muito distante, pelo epíteto "O Breve" - mesmo que, cronologicamente, sua permanência no cargo ainda se arraste até o fim deste governo.

*DAWISSON BELÉM LOPES É PROFESSOR DE POLÍTICA INTERNACIONAL E COMPARADA DA UFMG E AUTOR DE POLÍTICA EXTERNA E DEMOCRACIA NO BRASIL: ENSAIO DE INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA (UNESP, 2013)

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