Antônio, um santo festejado e maltratado

Santo, cujo dia é comemorado amanhã, tem de ser tratado com dedicação, defende estudioso

Elizabeth Lopes, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

Relatos de maus-tratos contra imagem do santo surgiram no Nordeste brasileiro

 

    Ele tem milhões de seguidores no Brasil, é reconhecido como um dos oradores mais cultos e inspirados da história e mantém há séculos uma popularidade de fazer inveja a celebridades e políticos. Altruísta e generoso, atende prontamente aos pedidos. Mesmo com tantas virtudes, Antônio - cujo dia é comemorado amanhã - é um dos santos mais maltratados no País, sobretudo por quem acredita que tais métodos garantem um par ideal.

Perto do Dia dos Namorados, festejado hoje, os castigos à imagem de Santo Antônio se intensificam. Tanto que este ano foi deflagrada uma campanha em prol do que ele pregava em vida: amor, altruísmo e caridade. "Não maltratem Santo Antônio" é a bandeira levantada por um dos especialistas na história desse santo no País, o estudioso Daniel Atalla. "Precisamos tratá-lo com mais carinho, amor e dedicação e, se possível, dedicar-lhe um relicário."

Os maus-tratos se popularizaram a partir de uma história contada no Nordeste brasileiro, segundo a qual uma jovem se apegou ao santo na esperança de arrumar um bom casamento. Por mais que ela orasse e fizesse as penitências, o pretendente não surgia. Um dia, revoltada, ela jogou a imagem do santo pela janela, atingindo um jovem que passava. Resultado: os dois se apaixonaram e se casaram. Nos flagelos ao santo, vale tudo: afogá-lo, amarrá-lo de ponta cabeça e tirar o Menino Jesus de seus braços, até o pretendente aparecer.

Os milagres não se restringem à área sentimental. "Ele é um santo guerreiro, da prosperidade, da proteção, recupera objetos perdidos, é ativador da riqueza", conta Atalla. O bispo auxiliar de São Paulo dom Joaquim Justino Carreira, da Região Episcopal Santana, concorda. "É um exemplo de fé, esperança e caridade para pessoas de todos os tempos."

Palco. O santo também reúne devotos no meio artístico. O músico Carlinhos Brown conta que, ao visitar a Igreja de Santo Antônio, em Portugal, tentou traduzir sua emoção em uma música. "Foi assim que nasceu Candeal de Santo Antônio, uma das mais bonitas canções de minha autoria." A cantora Vânia Abreu leva a imagem do santo para o palco e o camarim. "Sinto-me mais protegida."

A face guerreira de Antônio também está na umbanda e no candomblé. No sincretismo, ele representa Ogum, o orixá da guerra, que abre os caminhos. Ogum pode ser representado também por São Jorge. "Ele atende a todos, pois circula em todas as tribos", diz Armando Vallado, babalorixá e sociólogo da USP.

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