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Ao jeito dele

Ao brindar, Frank Sinatra não dizia “cheers!”, mas “cent’anni!”, augurando a todos os presentes cem anos de vida, proeza que nem o poderoso autor do brinde logrou comemorar. Só hoje, 17 anos após sua morte, Sinatra está chegando aos cent’anni. Cheers!

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2015 | 02h00

Há muito não se via um centenário tão estrepitosamente celebrado, e tanto mais surpreendente porque numa enquete sobre os maiores cantores do século passado, sufragada pela internet na virada do milênio, Sinatra amargou um inacreditável 126.º lugar.

Felizmente foi poupado de testemunhar aquela globalizada demonstração de desmemória e obscurantismo musical. Não me lembro dos 125 que o superaram nos votos, nem sequer dos três primeiros colocados; sei apenas que nenhum deles fazia sombra a Sinatra, o maior e mais admirado cantor popular de todos os tempos, o baladista inigualável, o rei do fraseado, o mestre do legato, o primeiro objeto de tietagem adolescente da história da música, o mais constante afrodisíaco nas vitrolas dos anos 1950.

Em outra enquete, realizada em 1956 pelo crítico de jazz Leonard Feather, meia centena de músicos famosos - entre os quais Miles Davis, Duke Ellington, Stan Getz, Benny Goodman, Gerry Mulligan, Oscar Peterson, Lester Young - elegeram Sinatra seu “cantor favorito”. Miles Davis confessou ter modelado seu estilo de tocar pelos fraseados do cantor, que hoje lidera até as preferências de um punhado de roqueiros. 

O pessoal do rock o admirava por ele ser cool, durão e musicalmente íntegro, uma espécie de protohip-hopper. Sean Combs não se autodefiniu como “o Sinatra negro”? Igualmente imodesto, Jay-Z não fez por menos: “Sou o novo Sinatra”. Como se fosse possível existir um novo Sinatra.

De onde menos se esperava, pintava uma confissão de idolatria. O grande crítico literário Edmund Wilson gostava de relaxar ouvindo o álbum In the Wee Small Hours, gravado pelo cantor em 1955. Faz sentido que Tony Soprano e seus asseclas o deificassem, mas Saddam Hussein? Pois é, nem o ditador iraquiano resistiu aos “velhos olhos azuis”. Sua música favorita era Strangers in the Night, de resto, uma das mais cafonas do repertório de Sinatra. 

Consoante a inclinação desta coluna, vou me deter sobre o Sinatra dos livros e das referências literárias. Não o das biografias, filão recentemente enriquecido por dois tomos de James Kaplan, nem mesmo o dos ensaios músico-biográficos, cujos destaques, a meu ver, são o magistral Sinatra! The Song Is You: A Singer’s Art, de Will Friedwald, e Why Sinatra Matters, de Pete Hamill, mas o presente ou aludido em verso e prosa ficcional. 

Deixo de lado o óbvio (O Poderoso Chefão, de Mario Puzzo) e todos aqueles romances vira-latas que não li (50 Tons de Cinza, um deles), embora admita minha curiosidade por uma abobrinha italiana, Il Cugnato di Ava Gardner, sobre um suposto parente siciliano do cantor, que tampouco lerei. Podemos ir direto a dois autores contemporâneos de peso: Don DeLillo e Thomas Pynchon. 

Em Submundo, de DeLillo, o cantor é apenas um figurante ilustre. Ao lado do chefão do FBI J. Edgar Hoover, do ator Jackie Gleason e do restauranteur Toots Schor, com ele cruzamos durante a eletrizante final do campeonato de beisebol de 1951, no estádio dos Giants, em Nova York. O romance é um diorama da América no auge da Guerra Fria, de cuja história cultural e mundana Sinatra foi muito mais que um figurante. Na ficção de Pynchon, repleta de referências musicais (quase 400 em Vício Inerente), o cantor aparece apenas evocado por suas interpretações de Fly Me to the Moon, Time After Time e My Way. 

Cultuado ardorosamente pela Geração Beat, Sinatra fez parte da “trilha sonora” emocional de Allen Ginsberg e da esfera aural de Jack Kerouac. Nos versos de Ginsberg encontramos várias alusões ao cantor e às suas performances, com o poeta esforçando-se para escrever “da maneira como Sinatra canta”, sobrepondo a uma viagem de carro o lamento de September of My Years, contrapondo That’s Life à guerra no Vietnã. Ginsberg se derretia pela “voz de negro” do cantor, para ele, o mais destacado emblema da cultura de massas do pós-guerra.

Sinatrólatra desde a adolescência, Kerouac parecia acreditar-se um avatar literário do cantor. Tinham em comum a origem social (filhos de imigrantes de classe média) e certas afinidades biográficas (sem irmãos, mãe dominadora, alma arruaceira, carreira precoce e promissora, espírito de liderança), mas pertenciam a mundos diferentes - que se cruzavam em outras esferas. As cantadas de Kerouac na escritora Helen Weaver vinham frequentemente enfeitadas por um sucesso de Sinatra. Era cantarolando clássicos de Irving Berlin, Gershwin e Harold Arlen (Last Night When We Were Young), nas interpretações de Sinatra, que ele amenizava sua voluntária reclusão nas montanhas do Estado de Washington, no começo dos anos 1960.

Kerouac gravou em fita vários fragmentos de Dr. Sax (fantasia de infância influenciada pelo misterioso personagem radiofônico O Sombra), embalado por dois dos mais melancólicos álbuns de seu ídolo, No One Cares e In the Wee Small Hours. Bem mais conhecida é sua fixação em Learning the Blues, manifesta em Os Vagabundos Iluminados (The Dharma Bums). Barbado e despenteado, a curtir um desbunde budista na cozinha dos pais, o vagabundo fazia uma paródia da canção de Dolores Silvers: “The tables are empty, everybody’s gone over” (As mesas estão vazias, o pessoal já foi tarde). O pessoal, no caso, eram os familiares, recém-saídos para um passeio dominical. Na letra original, “The tables are empty, the dance floor’s deserted”. Mesas vazias, pista de dança deserta. 

Toda a produção acadêmica em torno do artista e do mito Sinatra talvez não caiba, a essa altura, numa estante. Tomei um pouco mais intimidade com ela a partir de 1998, quando a Universidade de Hofstra hospedou um ciclo de palestra sobre “o homem, a música e a lenda” de Sinatra, alimentado por ensaios de historiadores, sociólogos, antropólogos, semiólogos e professores de literatura e filosofia. Entre os papers mais esdrúxulos, dois me pareceram imbatíveis: um estudo comparativo entre Sinatra e Descartes e uma análise da personalidade do cantor do ponto de vista junguiano. 

Sucesso absoluto, público saindo pelo ladrão. Naquele fim de semana na Hofstra, as mesas não ficaram vazias. 

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