Aos mestres, com e sem carinho

Pode parecer um paradoxo ou até ironia, mas fui reprovado duas vezes, uma no primeiro grau e outra no segundo, exatamente em português - ferramenta indispensável para fazer o que faço, por ofício e paixão, para ganhar a vida e criar minha família, para o que você lê agora.

, O Estadao de S.Paulo

27 de novembro de 2009 | 00h00

Tive de repetir ano porque, entre gramática e redação, não consegui sequer os dois ou três pontos necessários para passar nas provas de recuperação. Vagabundagem, sim, mas principalmente desinteresse absoluto, aulas chatíssimas e autores insuportáveis que nos eram dados para ler, como José de Alencar e Camilo Castelo Branco.

Adolescente, eu detestava as aulas de português, embora adorasse ler, dos 20 volumes do Tesouro da Juventude às obras completas de Monteiro Lobato e Julio Verne, até descobrir Gabriela Cravo e Canela de Jorge Amado, o Encontro Marcado de Fernando Sabino, e Nelson Rodrigues. Com esses mestres comecei a aprender a escrever. E não conseguia entender como havia recebido dois atestados de analfabeto no Colégio Santo Inácio. A resposta viria anos depois, com outro professor.

Conclui a duras penas o segundo grau no Supletivo, em uma série de provas no Colégio Pedro II. Com 17 anos e pai advogado, entrei na Faculdade Nacional de Direito, onde assisti a pouquíssimas aulas e brinquei de política no Centro Acadêmico, mas achei tudo muito chato. Logo caí fora, e finalmente encontrei, eu achava, minha verdadeira vocação: o design. Passei num vestibular violento, de 10 para 1, e fui um dos 30 a entrar para a recém-criada Escola Superior de Desenho Industrial.

Tínhamos aulas de 7 da manhã às 7 da noite, excelentes professores, entre eles vários designers europeus, os alunos adoravam a escola. O problema começou nas aulas de Comunicação Verbal, que era o bom e velho português, para os futuros designers saberem redigir suas análises e projetos. O professor era tão bom, suas aulas tão empolgantes, tão contagiante a sua paixão pelo novo jornalismo dos anos 60, que, a seu conselho, fui fazer um estágio no Jornal do Brasil. E acabei abandonando o design. O mestre era o Zuenir Ventura.

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