Aparição Antológica

A banda texana Mars Volta fez o show mais vigoroso e impecável de rock na primeira

Jotabê Medeiros,

11 de outubro de 2010 | 04h24

Quando é que The Mars Volta sabe que uma de suas músicas terminou? A resposta poderia ser: e quem disse que uma música precisa terminar?

Um tornado de psicodelia progressiva, uma retomada da linha evolutiva do Led Zeppelin banhada por espasmos de punk rock e heavy metal. No sábado à noite, no palco Água, por volta das 21 horas, a banda texana fez o show mais vigoroso, inteligente, tenso, cerebral (e impecável) de rock‘n’roll do festival - ao menos até a tarde de domingo.

A voz de Cedric Bixler-Zavala, seus passos de dança de James Brown epilético, o visual underground tipo blaxploitation (boinas cobrindo os olhos, calças de cintura saint-tropez, lenço de seda amarrado no pescoço) ao entrarem no palco, tudo já parecia mostrar que não tinham vindo para entregar um "produto" ao grande mercado consumista do rock. Não há nada mais ou menos no som do Mars Volta: as linhas de baixo faziam vibrar o ar na bucólica fazenda, enquanto bateria e guitarra empreendiam uma viagem por pelo menos quatro décadas de história do rock - sem nunca se ajoelhar para a nostalgia ou o passadismo.

Música, para o Mars Volta, consiste em transportar o ouvinte, o espectador, para uma atmosfera sem chão, o velho sonho lisérgico, que, ao cabo de duas horas, terá modificado para sempre a percepção do cidadão (como acreditou o velho Thimoty Leary, só que o veículo naquele tempo seria o ácido).

Ao final, parecia que tinham tocado dois álbuns duplos, mas eram apenas cinco músicas: Cotopaxi (do álbum Octahedron, de 2009), Goliath (do disco The Badlam in Goliath, de 2008), Eriatarka, Cicatriz e Roulette Dares (as três do disco De-Loused in the Comatorion, de 2003). Todas se alojam com precisão na guitarra de Omar Rodriguez-Lopez, que costura todos os solos como um citarista indiano, de vez em quando interrompendo a meditação para soltar berros lancinantes sobre o vale.

Elegância. Obviamente que o disco Led Zeppelin II ecoou fundo na alma do Mars Volta até hoje, mas também é verdade que seu progr-rock não é tributativo, é outra coisa completamente diferente, uma evolução do Led a partir dos escombros da geração punk. Algo que hoje (seis anos depois de sua última visita, sua passagem pelo TIM Festival, em 2004) os tornou um dos mais impactantes eventos do rock. E pode ser que o Mars Volta nunca planeje o momento exato de terminar um música, mas é óbvio que são os mais elegantes em sair de um palco. Longe do microfone, Cedric andou pelo tablado, encarou os fãs de longe, deslizou para as coxias e, antes de sumir, disse um obrigado sem sentimentalismo. Parecia desafiar: tentem dormir depois disso.

 

 

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