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Apenas 4% dos rios da Mata Atlântica têm água considerada boa

Levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica mostrou ainda que nenhum ponto analisado foi considerado ótimo; Tietê, São Francisco e Parnaíba e Iguaçu são exemplos de rios monitorados na pesquisa

Paula Felix e Roberta Jansen, O Estado de S. Paulo

19 Março 2018 | 11h04
Atualizado 19 Março 2018 | 19h22

SÃO PAULO - Somente 4% dos rios que cortam a Mata Atlântica em todo o País têm qualidade da água considerada boa; a maior parte é regular (75,5%) ou ruim e péssima (20,4%). É o que revela a nova edição do relatório anual produzido pelo programa “Observando os Rios”, coordenado pela Fundação SOS Mata Atlântica.

Foram analisados 230 rios, córregos e lagos em 102 cidades dos 17 Estados da Mata Atlântica.  O levantamento, realizado entre março de 2017 e fevereiro de 2018, mostrou que nenhum dos pontos analisados foi considerado ótimo. Tietê, São Francisco, Capibaribe, Parnaíba e Iguaçu são exemplos de rios monitorados na pesquisa. O Tietê, analisado em 15 pontos, teve somente dois com qualidade boa.

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"A gente não fica surpreso com os dados. No ponto de vista das políticas públicas que resultam na melhora da qualidade da água, houve estagnação e muitos retrocessos. Quando a gente mostra que os rios estão doentes, principalmente os urbanos, é como se fosse um espelho de todo esse caos que a gente está vivendo. Aceitar os rios desse jeito faz com que os políticos também não os priorizem", afirma Malu Ribeiro, coordenadora do estudo e especialista em Água da Fundação SOS Mata Atlântica.

“Os resultados apontam a fragilidade da condição ambiental dos principais rios da Mata Atlântica e a urgência de incluir a água na agenda estratégica do Brasil. Rios e águas contaminados são reflexo da ausência de saneamento ambiental, gestão e governança”, complementa. 

Segundo Malu, a qualidade da água doce superficial é muito suscetível às condições ambientais, às variações e impactos do clima, aos usos do solo e às atividades econômicas existentes na bacia hidrográfica. Sendo assim, a água está diretamente ligada à conservação da Mata Atlântica, à sustentabilidade dos ecossistemas, à saúde e atividades econômicas da população que vive no bioma.

O estudo fez ainda uma comparação entre resultados obtidos no ciclo de 2017, entre março de 2016 e fevereiro de 2017, e no ciclo de 2018, que tinha como base de dados o monitoramento de 188 pontos fixos de coleta em 11 Estados, entre eles Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Santa Catarina e São Paulo.

A qualidade da água se manteve estável nos pontos em que ela foi considerada boa - todos localizados em áreas protegidas da Mata Atlântica. Comportamento semelhante ocorreu nos locais em que a água era considerada regular. No entanto, em 16 pontos de coleta sem essa proteção, houve perda de qualidade da água.

"Os dados comprovam que preservar as nascentes seria a nossa segurança hídrica diante de eventos de clima, que são imprevisíveis. Não dá para saber quanto tempo vai durar o período de seca, por exemplo. Quando tem engajamento, a água responde rápido. Quando deixa de cuidar e desmata, em um mês, perde-se o que se investiu em 20 anos", diz Malu.

“Ainda estamos distantes do que a sociedade necessita para segurança, mas conseguimos diminuir de 7 pontos com qualidade péssima em 2015 para 1 neste ano. No entanto, para que os indicadores reunidos nesse estudo possam se traduzir em metas progressivas de qualidade da água nos milhares de rios e mananciais das nossas bacias hidrográficas, é fundamental que a Política Nacional de Recursos Hídricos seja implementada em todo território nacional, de forma descentralizada e participativa, e que a norma que trata do enquadramento dos corpos d’água seja aprimorada, excluindo os rios de classe 4 da legislação brasileira“, conclui Malu.

A classe 4 na prática permite a existência de rios mortos por ser extremamente permissiva em relação a poluentes e mantém muitos em condição de qualidade péssima ou ruim, indisponíveis para usos.

Para Marcia Hirota, diretora executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, esse levantamento é uma contribuição da sociedade, representada pelos voluntários do projeto, ao aprimoramento de políticas públicas que impactam na gestão da água limpa para todos. “Ao reconhecer os rios como espelhos da qualidade ambiental das cidades, regiões hidrográficas e países, conseguimos identificar rapidamente os valores da sua comunidade, a condição de saúde na bacia e de desenvolvimento“, completa.

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