Apesar de tudo, o diálogo com o Irã ainda é necessário

Desde que fui solto da famosa prisão de Evin, em Teerã, no mês passado, não me param de perguntar: Ainda podemos conversar com essa gente? O governo Obama deve se engajar num diálogo com o Irã? O que o Ocidente deve fazer sobre as negociações nucleares?

Maziar Bahari*, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Após ser preso, interrogado e espancado pela Guarda Revolucionária durante 118 dias por reportar honestamente sobre a contestada eleição presidencial de junho, muitos esperam que eu me oponha a qualquer diálogo. Mas o Ocidente ainda precisa do Irã e deve continuar conversando com o país - a despeito do que ele tenha feito a pessoas como eu.

Dentro de Evin, fui forçado a confessar que fazia parte de uma conspiração da mídia ocidental para derrubar o regime. Fui forçado a pedir desculpa ao líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Fui libertado tão abruptamente como fui preso, sem qualquer explicação.

Mas meu interrogador me disse para enviar uma mensagem ao mundo: "Somos uma superpotência. O poder dos EUA está se desfazendo, e nós em breve os superaremos. Agora que os americanos começaram essa guerra contra nós, não os deixaremos em paz."

Ele fez uma pausa, percebendo, talvez, que parecia defensivo. Eu era um jornalista encarcerado usando uma venda nos olhos, não algum tipo de espião - nem mesmo sou americano. Ele mudou o tema para guerra "branda", um termo que Teerã usa para se referir a uma guerra imaginária que diz ser promovida pela mídia contra o "sagrado governo da República Islâmica".

A Guarda Revolucionária é um grupo esquizofrênico, marcado por profundas inseguranças e também por um complexo de superioridade. Ela tem a ambição de assumir o governo e expandir seu império de negócios no Irã. Ao mesmo tempo, tem pavor de pessoas e grupos que questionam seu controle do poder. A Guarda é a base de poder real de Khamenei. É a principal defensora de sua pretensão de ser o representante de Alá na Terra.

Uma das acusações mais sérias contra mim foi a de ter ofendido Khamenei. Num e-mail particular, eu havia imaginado se Khamenei estava cego pelo poder e havia perdido o contato com seu povo, e se era por isso que ele estava respondendo com força às reivindicações pacíficas. Foi o que bastou para meu interrogador me chutar e socar durante dias e me ameaçar com a execução.

No triângulo de poder do Irã - a Guarda, Khamenei e o presidente Mahmoud Ahmadinejad -, a Guarda está se tornando mais forte que o presidente e o líder supremo. Alguns guardas são devotados a Khamenei por razões religiosas, mas muitos usam seu status de líder religioso para legitimar suas próprias ações. A Guarda possui armas e dinheiro.

Ela é a maior prestadora de serviços industriais no Irã. Tem companhias importantes por toda a região e no Ocidente e está envolvida no contrabando de produtos para dentro e para fora do Irã. E só presta contas a Khamenei.

Sendo assim, será que o Ocidente, em especial os EUA, pode dialogar com essa gente? Pode. Porque não há outra escolha. O Ocidente precisa negociar com o Irã sobre o programa nuclear e a estabilidade no Iraque e no Afeganistão. Não falar com Teerã não funciona: as ações hostis de George W. Bush contra Teerã ajudaram os linhas-duras a consolidarem seu poder. Só com um entendimento, até mesmo com um regime mais radical, o Ocidente pode obrigar Teerã a avaliar os custos e benefícios de lidar com o mundo exterior.

AMEAÇA

Então, o que os EUA deveriam fazer? Primeiro, um Irã nuclear não deve ser tolerado. Embora eu acredite que o Irã não começará a atacar outros países tão logo consiga construir a bomba, possuir a bomba encorajará a Guarda a intensificar sua repressão dentro do país e a se expandir regionalmente.

O governo americano deve usar todos os seus recursos - incluindo o charme do presidente Barack Obama - para persuadir aliados, em especial a China e a Rússia, a trabalharem com ele para desenvolver sanções inteligentes que visassem exclusivamente ao programa nuclear do Irã e não prejudiquem os iranianos comuns.

Ao mesmo tempo, o Ocidente precisa separar as negociações nucleares das conversações sobre o Iraque e o Afeganistão. Teerã compreende que a insegurança nesses países é danosa tanto para si como para os EUA. O Irã adoraria condicionar sua ajuda a uma grande barganha com o Ocidente que garantisse a segurança e a sobrevivência do regime e preservasse seu projeto nuclear. Mas melhor seria usar a cooperação sobre esses dois países como uma medida para construir a confiança em negociações.

A percepção comum entre meus amigos americanos costumava ser: "Se os americanos apoiarem uma certa facção no Irã, será mais fácil para o regime persegui-la."

Isso pode ter sido verdade um dia. Mas o Irã entrou numa nova fase. Ativistas de oposição foram acusados de ser agentes do Ocidente. Eu fui acusado de trabalhar para a CIA simplesmente porque escrevia para uma revista americana. O rumor do dia no Irã é que Obama e a Guarda estão chegando a um acordo para normalizar relações e, em troca, os EUA ignorariam abusos aos direitos humanos. Daí o slogan do movimento de oposição: "Obama, ou com eles ou conosco."

Os EUA agiram contra os interesses do povo iraniano no passado. Repetir esse erro por vantagens táticas seria o maior erro do governo Obama.

Quanto ao povo iraniano, a vítima mais imediata do regime brutal, precisamos pensar no longo prazo. Nosso ódio deve ser sublimado em algo mais positivo. Fomos brutalizados ao ponto de pensarmos o mundo em preto e branco. Ver os matizes de cinza pode ser a nossa arma mais poderosa contra aqueles que nos prenderiam, espancariam e torturariam.

*Maziar Bahari, cineasta canadense e repórter de Newsweek, foi solto da prisão de Evin em 17 de outubro

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