Vadim Ghirda/AP
Vadim Ghirda/AP

Após acusar legume errado pela 2ª vez, Alemanha não acha origem de surto

Pepinos da Espanha e produtos orgânicos do norte da Alemanha foram declarados suspeitos de causarem a epidemia de 'E. coli', para serem inocentados depois de passar por testes; União Europeia reconhece que seu sistema de vigilância está superado

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / GENEBRA

Pela segunda vez em uma semana, autoridades alemãs não apenas falharam na busca da origem da cepa da bactéria E. coli que afeta a Europa como erraram ao acusar certos produtos de ser a fonte da epidemia. Após causar temores e prejuízos, a UE reconhece que seu sistema de vigilância fracassou e está superado.

O governo alemão admitiu ontem que segue indefinida a origem do surto, que deixou 23 mortos e 2,3 mil contaminados até o momento. O problema é que a falta de uma resposta veio acompanhada por erros que a própria UE classificou ontem como "inaceitáveis".

Na semana passada, as autoridades alemãs apontaram que o culpado seria o pepino produzido em duas regiões do sul da Espanha. O produto foi inocentado após ser testado.

No fim de semana, o alvo foi trocado. Um ministro da Baixa Saxônia afirmou anteontem que estava "bastante claro" que a culpa era das plantações de leguminosas germinadas em uma granja orgânica no povoado de Bienenbuettel, no norte da Alemanha. O local foi fechado pelo Ministério da Agricultura e um alerta à população foi lançado, mas ontem os primeiros testes não encontraram vestígios da cepa perigosa da E. coli nos produtos da granja.

"Achamos que a origem do surto é algo que as pessoas comem e ainda estamos procurando por ele. Pode ser salada, pepinos, brotos ou tomates", afirmou Rico Schmidt, porta-voz do Departamento de Saúde de Hamburgo. "Estamos investigando tudo o que as pessoas contaminadas comeram. Visitamos suas casas e retiramos amostras de suas geladeiras", explicou.

O número de infecções se estabilizou em Hamburgo e na Baixa Saxônia, afirmaram as autoridades de saúde locais. "As informações que estamos recebendo mostram que a contaminação não está se espalhando. Ela está contida e a incidência de infecção é reduzida diariamente", afirmou ontem John Dalli, comissário de saúde da UE. "O que estamos vendo é resultado de contaminações prévias, passando pelo período de incubação."

Técnicos consultados pelo Estado admitiram que o problema maior não é que a origem do surto ainda não foi encontrada, mas o temor causado pelas autoridades alemãs e as perdas financeiras ao declarar que a origem seriam produtos rurais, sem comprovação técnica (mais informações nesta página).

Novo sistema de alerta. Ontem, a UE reuniu seus 27 ministros de Saúde em caráter de emergência e concluiu que precisa reformar seu sistema de alerta para alimentos perigosos. A medida será necessária para evitar novos alarmes prematuros e sem base científica.

Liderados pela Espanha, um grupo de países europeus pediu uma reforma imediata e medidas concretas para que a situação de "alarmes falsos" não volte a ocorrer. A reunião também escancarou a situação embaraçosa que vivem as autoridades sanitárias europeias, por não terem conseguido traçar um plano para lidar com a bactéria e, a cada dia, apontarem para um culpado diferente.

A Espanha havia ameaçado entrar na Justiça contra a Alemanha por conta da acusação contra sua produção agrícola. Leire Pajin, ministra de Saúde da Espanha, afirmou ontem que vai cobrar um pedido de desculpas oficial por parte da Alemanha e deixou claro que há um "profundo mal-estar" em relação às decisões tomadas por Berlim.

Importantes produtores agrícolas dentro da UE, como Polônia, Itália e França, deram pleno apoio aos espanhóis. A Hungria, que preside a UE até julho, também saiu em defesa da Espanha.

Na prática, querem um sistema de alerta baseado em provas científicas e que um comunicado seja transmitido aos países afetados antes que o alarme seja dado aos consumidores. / COM APC

Medo

MEHMET TANIS

VENDEDOR DE LEGUMES (BERLIM) "Não oferecemos mais pepinos. As pessoas simplesmente não os compram mais. Também estamos vendendo 80% menos alface e apenas metade dos tomates."

ROLF STAHL

MÉDICO

Cozinhe (os legumes) ou não os coma."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.