Após briga, Constituinte da Bolívia é suspensa

Protestos afetam formulação da Carta em Sucre; em La Paz deputados trocam socos.

Márcia Carmo, BBC

23 de agosto de 2007 | 07h56

As sessões da Constituinte da Bolívia foram suspensas "por tempo indeterminado" na quarta-feira, como anunciou a presidente da Assembléia Constituinte, Silvia Lazarte. Segundo a Agência Boliviana de Informação (ABI), Lazarte alegou falta de "garantia" para preservar a "integridade física" dos constituintes diante da "crescente escalada de vandalismo". De acordo com esta agência oficial, o futuro da assembléia constituinte "corre risco". Os debates para a redação da nova carta magna são realizados em Sucre (capital constitucional da Bolívia e sede da Suprema Corte de Justiça), onde moradores protestam há mais de dez dias contra o fim das discussões para que o departamento seja a capital do país. A imprensa boliviana estima que, atualmente, cerca de trezentas pessoas realizam greve de fome em Sucre para que o debate sobre a capital seja reaberto.Ao mesmo tempo, na quarta-feira, manifestantes correram atrás de constituintes nas ruas da cidade para agredi-los. O quadro levou Lazarte a adiar os debates. "Se não existe segurança suficiente e se não existe clima para que os trabalhos da constituinte funcionem, a sessão fica suspensa até novo aviso e sem data e nem hora específica", disse Lazarte. A proposta de transferir a capital de La Paz (sede da Presidência e do Congresso Nacional) para Sucre tinha gerado sérios protestos em La Paz e comemorações em Sucre. Os conflitos levaram a base governista do presidente Evo Morales a desistir da idéia de mudanças. "Essa discussão estava provocando um grande desgaste para o governo em La Paz, onde estão reunidos mais de 30% dos eleitores", disse à BBC Brasil o analista Jose Luis Galvez, gerente geral do instituto Equipos Mori. Desde então, as discussões estão paradas na assembléia, onde nenhum artigo foi aprovado em cerca de treze meses de debates.Recentemente, o prazo para a conclusão dos trabalhos foi adiado de seis de agosto para dezembro, mas situação e oposição admitem que esta prorrogação também pode ser insuficiente.A nova carta magna boliviana é considerada fundamental por Morales, que disse, mais uma vez, pretender "refundar" o país a partir de sua aprovação. O novo impasse na Assembléia Constituinte ocorreu pouco depois que deputados trocaram socos e pontapés, no plenário da Câmara dos Deputados, em La Paz, diante das câmeras de televisão. A briga ocorreu numa sessão convocada para votar a abertura de processo contra quatro ministros do Tribunal Constitucional.A discussão entre os parlamentares para processar os ministros Elizabeth Íñiquez, Martha Rojas, Wálter Raña y Artemio Arias acabou com agressões físicas entre integrantes da situação e da oposição - que também contou com a participação de mulheres, do Partido opositor Podemos, aos gritos, do alto das cadeiras da casa. Para evitar novos enfrentamentos, as discussões foram transferidas para a sede da vice-presidência da República, onde a maioria da base governista aprovou a saída dos magistrados, acusados de irregularidades. A decisão ainda precisa ser ratificada. O vice-presidente Álvaro García Linera criticou a violência nos debates políticos e disse que o governo não desistirá das reformas que pretende implementar, através da via democrática. "Nos últimos dias, a democracia boliviana foi assediada por pequenos grupos conservadores e violentos que trocaram as ideias por pontapés, ameaças, chantagens e insultos racistas, mas é óbvio que a democracia continua vigorosa na Bolívia", disse. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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