Após Dubai, a Grécia.E após a Grécia?

Durante todo o dia de ontem, os europeus dirigiram seu olhar não para Copenhague, onde se realiza a conferência sobre o clima, mas para um outro país do Velho Continente: a Grécia. Um vento de angústia sopra sobre a Comissão de Bruxelas no temor de que a Grécia seja compelida à "falência". Os números são preocupantes.

Gilles Lapouge*, O Estadao de S.Paulo

11 Dezembro 2009 | 00h00

A Grécia corre ao longo do abismo. Sua dívida já alcança 112% de seu Produto Interno Bruto (PIB). Seu déficit orçamentário atinge 12,7% do PIB. As agências de classificação de crédito que avaliam a solvência dos devedores, Moody"s, Standard and Poor"s, e Fitch, degradaram a classificação da Grécia.

Consequência: Atenas terá de aceitar taxas de juros cada vez mais altas para captar empréstimos. Ora, como ela está em ruínas, estará condenada a emprestar quantias cada vez mais gigantescas. É assim que se produzem os colapsos.

A ansiedade dos meios europeus é legítima. É bom não se iludir: a Grécia não se safará dessa sozinha. E como a União Europeia não pode permitir o naufrágio de um de seus membros, ela sairá em seu socorro.

Em outras palavras, são os alemães, franceses, ingleses que serão chamados a segurar a Grécia na beira do abismo. Grandezas e misérias da União Europeia. Mas os financistas já se perguntam se a queda da Grécia não constitui o primeiro sinal de uma nova desordem mundial.

Na Europa mesmo, ao menos três outros países estão sangrando. E pode-se temer que eles se juntem à Grécia em seu inferno. Trata-se de Espanha (que na quarta-feira teve sua classificação degradada pela agência Fitch), Portugal e Irlanda. São, portanto, quatro países europeus sobre o fio da navalha.

Nos meios de investimentos financeiros esses países são chamados, de uma maneira não muito delicada, pelas suas iniciais, ou seja, PIGs (porcos, em inglês).

Infelizmente, a lista não está fechada. Fora da União Europeia, muitos países perdem o fôlego. Outras explosões são possíveis. Na Rússia e nos antigos países da União Soviética, montanhas de dívidas chegam ao vencimento e terão de ser refinanciadas. Essas dívidas são uma pequena parte das dívidas do Estado russo e, sobretudo, das dívidas contraídas por empresas - em especial, pela gigante de gás, Gazprom. A dívida russa (privada e pública) já alcança US$ 470 bilhões.

Mesmo nos países ricos, como Estados Unidos ou Japão, déficits orçamentários se impuseram para manter à tona economias pesadamente danificadas. A rigorosa Alemanha está nesse caso. No próximo ano, seu passivo representará 70% de seu PIB ante 60% em 2002. Na Grã-Bretanha, ele subirá a 80%.

Voltando à União Europeia: Letônia, Lituânia, Estônia, mas também Bulgária e Hungria, todos esses países incorrem num endividamento superior a 100% de seu PIB.

Por toda parte, os governos e as companhias combateram a crise apelando para o crédito. Ora, chega o momento em que esses empréstimos monstruosos terão de ser reembolsados. Será preciso contrair novos empréstimos para saldar os primeiros. Mesmo a China está ameaçada: em 2010, as empresas chinesas deverão captar US$ 8,8 bilhões. No México, serão US$ 11 bilhões.

Segundo o JP Morgan Chase, as companhias russas tomaram emprestado, entre 2006 e 2008, US$ 220 bilhões, ou seja, 13% do PIB da Rússia. Nos Emirados Árabes Unidos, os empréstimos atingem US$ 135,6 bilhões, ou 53% do PIB. Na Turquia, a cifra alcança US$ 135 bilhões, ou 53% do PIB.

Não vamos prosseguir com essa enumeração macabra. Esses lembretes não reduzem, é claro, a gravidade da doença que atingiu a Grécia e, por meio dela, a Europa. Queremos apenas lembrar que se podem discernir, em todos os continentes, e em alguns países ricos ou pobres, grandes barris de pólvora bem pouco dissimulados que podem ser detonados pela menor explosão num país vizinho.

* O autor é correspondente em Paris

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