Após ocupação, favela vira cemitério de motos do tráfico

No dia seguinte à ocupação da Vila Cruzeiro pela forças policiais do Estado, o que mais impressionava não era o lixo não recolhido por dois dias, tampouco as carcaças de três caminhões queimados ou mesmo as barricadas montadas para impedir o acesso dos carros de polícia. Era a enorme quantidade de motocicletas abandonadas por todas as ruas da favela, muitas delas queimadas, outras muito amassadas. Segundo a polícia, somavam mais de 300, devem ter sido roubadas e estavam com os traficantes que fugiram da favela sem levá-las.

MARCELO AULER, Agência Estado

26 de novembro de 2010 | 20h06

Passado o tiroteio, a grande preocupação dos moradores hoje era a falta de luz, provocada pelo derretimento dos fios, consequência do incêndio de caminhões ontem. Eles reclamavam da comida estragando em geladeiras desligadas e da ausência da televisão e da falta de ventiladores, usados muito mais para espantar mosquitos do que aliviar o calor. Uma senhora que, por medo, não se identificou, lamentou a possível perda de centenas de salgadinhos que já estoca no freezer preparando a festa de 15 anos da neta, em fevereiro.

Amaro, de 64 anos, dono de uma loja de material de construção, reclamava que a falta de luz impedia as vendas com cartões de débitos e créditos, mas mantinha o otimismo: "Pensei que seria pior, mas acabou sendo fácil. Graças a Deus tá tranquilo e vai ficar melhor".

Enfermaria do tráfico

No matagal no local conhecido como Vacaria - referência a um antigo pasto - estava o corpo de um jovem com cerca de 21 anos. Um menino da Vila Cruzeiro identificou-o como um dos traficantes que fugiram do morro Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, após a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

Na região da Caixa d''Água, na travessa José Anchieta, o Bope descobriu em uma casa um quarto de enfermaria, preparado para prestar primeiros socorros aos traficantes. Já na Rua 14, estava a bem instalada Petisqueira Boca a Boca, que seria propriedade do traficante Marcelo da Silva Soares, o Macarrão, homem de confiança do traficante Fabiano Atanásio da Silva, o FB. Ela foi tomada pelo Bope, que a transformou em quartel e consumiu o que havia para comer.

O controle sobre a circulação na Vila Cruzeiro pelos marginais era tal que os traficantes Lúcio Mauro Carneiro dos Passos, o Biscoito, e Robertinho do Cajueiro, responsáveis pelo comércio de drogas nos morros Camarista Méier, no Méier, e Cajueiro, em Madureira, instalaram ali um laboratório de refino e embalagem de drogas e o escritório responsável pela contabilidade dos seus negócios.

O local foi encontrado hoje por policiais da 21.ª Delegacia de Polícia, que além do material químico para o preparo das drogas, encontraram cerca de 100 quilos de drogas (cocaína e maconha), uma prensa e uma máquina de contar dinheiro. A polícia também descobriu uma garagem com carros importados roubados: três caminhonetes Hylux, um Toyota Corolla e um Hyundai - este com placa de Itajaí (SC).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.