Após um ano de trégua, gargalos da economia voltam a preocupar

Com a retomada do crescimento, vários setores já alcançaram ou se aproximam dos patamares pré-crise global

Renée Pereira, O Estadao de S.Paulo

31 Dezembro 2009 | 00h00

O forte crescimento do mercado interno e a expectativa de safra recorde de grãos devem ressuscitar antigos problemas da infraestrutura brasileira. Com a crise internacional, que derrubou a demanda no mundo inteiro, o País ganhou alívio nos portos, ferrovias, estradas e energia elétrica. Mas essa folga começa a fazer parte do passado. Prova disso é que os principais indicadores do setor, como venda de caminhões, consumo de diesel e fluxo nas estradas, já alcançaram (ou estão bem próximos) os patamares do pré-crise (ver quadro).

A maior preocupação de especialistas e empresários está na logística de transporte, que andou pouco durante este ano por causa da retração dos investimentos. Só o acréscimo de 5,47 milhões de toneladas de grãos, previsto para a safra 2009/2010, vai elevar de forma expressiva o número de caminhões nas estradas nacionais (se todo esse volume fosse transportado por rodovias, seriam necessários 160 mil caminhões).

Isso porque a expansão das ferrovias não foi suficiente para chegar em algumas áreas produtoras, como o Mato Grosso, diz o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. Segundo ele, embora seja o maior produtor de soja do País, responsável por 26% da produção nacional, o Estado tem apenas alguns "míseros" quilômetros de ferrovia na fronteira com Goiás. O que acaba empurrando a carga para as rodovias, já que a hidrovia também tem baixa capacidade.

Além da safra, o aquecimento da economia interna também deve elevar o movimento nas estradas, hoje responsável por 62% de tudo que é transportado no País (se for excluído o transporte de minérios, a participação das rodovias sobe para 85%). "Vamos crescer em cima do caminhão", afirma o professor da Coppead/UFRJ, Paulo Fleury, diretor executivo do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos).

Na avaliação de Fleury, o País está próximo de retomar a situação do início de 2008, em que as transportadoras escolhiam os clientes para atender. A informação é reforçada pelo presidente da Associação Nacional de Transporte de Carga e Logística (NTC), Flávio Benatti. "Já verificamos alguns problemas de atendimento, além de filas na compra de caminhões. Algumas montadoras só estão fazendo entregas para fevereiro ou março."

NÍVEIS PRÉ-CRISE

Em novembro de 2009, as vendas de veículos pesados tinham voltado aos níveis pré-crise, com alta de 38,2% em relação ao mesmo mês de 2008. Já o consumo de óleo diesel atingiu o maior patamar dos últimos três anos, segundo dados do Ilos. "O País foi salvo pela crise. Mas qualquer 4% ou 5% de crescimento trará à tona as deficiências da infraestrutura", diz o diretor da Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Carga (Anut), Renato Voltaire.

Apesar da expectativa de aumento do fluxo rodoviário, houve pouca melhora nas estradas nos últimos anos - 69% das rodovias continuam em estado regular, ruim e péssimo. "Embora o governo tenha elevado os investimentos nas rodovias, os volumes ainda são muito modestos diante da realidade do setor. A cada um ponto de aumento do PIB (produto interno bruto), a atividade de transporte cresce 3,5 vezes", diz Benatti.

O setor portuário também vê recuperação no volume de cargas. Mas, como houve queda no preço das commodities, o fluxo financeiro continua abaixo do verificado em 2008. No mercado, a expectativa é que haja um crescimento médio de 7% em 2010, impulsionado pelas exportações de grãos (a exportação, em contêineres, ainda continuará fraca). Outro fator é o aumento das importações, que devem evidenciar ainda mais as fragilidades dos portos brasileiros.

Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), Willen Manteli, o principal problema dos portos nacionais continua sendo os acessos terrestres e marítimo. O Plano Nacional de Dragagem para aprofundar os canais, enfim, parece começar a sair do papel, mas os benefícios só serão sentidos em 2011, já que boa parte das dragagens ainda não foi iniciada.

Com o acesso dos canais restrito, os navios precisam obedecer o regime das marés para entrar ou sair do cais. Sem contar que a baixa profundidade limita o acesso dos navios de grande porte. "Na chegada aos portos, a situação não é muito diferente. Se não houver um planejamento logístico, novamente vamos ver aquelas terríveis filas de caminhões nas rodovias."

GEOGRAFIA

O diretor da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Luiz Fayet, diz que houve uma mudança geográfica no agronegócio que não foi acompanhada pelos investimentos em estradas, ferrovias e portos. Como os maiores produtores estão no Norte e Centro-Oeste, o mais natural seria escoar a safra pelos portos do Norte.

"Mas a capacidade desses terminais e das hidrovias que dão acesso a eles está muito abaixo da necessidade do agronegócio", diz Fayet, referindo-se aos portos de Santarém (PA), São Luís (MA) e Porto Velho (RO). Na safra de 2007/2008, a demanda para exportar por São Luís era de 5 milhões de toneladas. Mas o terminal só pode atender 2 milhões de toneladas, porque as obras não saíram do papel, diz Fayet.

O restante teve de ser transportado pelos portos do Sul e Sudeste, o que encareceu a logística. "Em 2010, a situação será ainda pior com o aumento da safra." De acordo com estudo do Instituto de Pesquisas Econômica e Aplicadas (Ipea), o Brasil precisa de R$ 43 bilhões para ampliar os portos nacionais num período de 10 anos.

No setor de eletricidade, o País não deve ter problemas com a oferta de energia, apesar da expectativa de crescimento do consumo em 9,4% em 2010. "A única preocupação está relacionada à rede de distribuição. Será que ela está preparada para o aumento do consumo?", questiona Paulo Resende, professor da Fundação Dom Cabral, lembrando os apagões recentes no País.

Outro problema levantado por ele são os aeroportos. Apesar da crise, o setor não registrou queda no volume de passageiros. Pelo contrário. Até agosto, esse número havia subido 5%. "Se a demanda crescer 1,5% em relação ao PIB, os aeroportos virarão o caos", diz.

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