Apple busca nova revolução com o iPad

Produto é mistura de notebook, e-reader e telefone inteligente

Gustavo Chacra, correspondente em Nova York, O Estadao de S.Paulo

28 de janeiro de 2010 | 00h00

No dia em que o presidente americano Barack Obama faria o seu mais importante discurso no ano, os Estados Unidos pararam para assistir à apresentação de Steve Jobs, presidente da Apple, no lançamento do já considerado revolucionário iPad - uma espécie de mistura de um laptop com um celular inteligente - em cerimônia na cidade de San Francisco.

Ainda magro em consequência de problemas de saúde, Jobs, com sua tradicional camisa de gola alta preta, subiu ao palco e, depois de contar um pouco da história e dos lucros de produtos da Apple como o iPod, exibiu pela primeira vez o iPad, que vinha sendo aguardado desde o fim do ano passado.

"Nós queremos iniciar 2010 com a introdução de um produto verdadeiramente mágico e revolucionário. É muito mais intimista do que um laptop e bem mais capaz do que um celular inteligente", afirmou o carismático presidente da Apple para uma audiência de dezenas de jornalistas, em evento que ofuscou completamente o lançamento do celular Nexus One pelo Google semanas atrás. Canais de TV pararam as suas programações normais para mostrar o novo produto, enquanto os jornais fizeram cobertura instantânea por meio de blogs.

Como no caso do iPod, o produto se difere de praticamente tudo o que existe no mercado. Fisicamente, o iPad lembra um iPhone gigante. Sua tela sensível ao toque terá cerca de dez polegadas. O aparelho pesará 680 gramas. Não haverá teclado físico, apenas virtual.

Segundo Jobs, a bateria será econômica, sendo possível assistir a um filme de "San Francisco a Tóquio" - esse foi o principal obstáculo para o desenvolvimento do produto. O modelo mais avançado, com 64 gigabytes de memória, custará US$ 829, enquanto o mais simples poderá ser adquirido por US$ 499. Os dois devem estar à venda nas lojas da Apple nos Estados Unidos em dois meses. Não há previsão de quando será lançado no Brasil.

A conexão à internet deverá ser fornecida por meio de um plano de US$ 30 mensais com a AT&T, companhia já responsável pelo iPhone no território americano.

Apesar de não fazer chamadas convencionais, o iPad poderá usar softwares de telefonia via internet. O aparelho inova por ter a vantagem de poder utilizar 140 mil aplicativos criados para o iPhone inexistentes nos seus competidores na categoria tablet. Além disso, supera os netbooks (computadores menores para navegar na internet) por ter uma tela com resolução bem maior e um design mais simples, típico da Apple, com apenas um botão.

"Os netbooks não são melhores em nada. Eles possuem telas de baixa qualidade", disse Jobs, tentando mostrar a superioridade de seu produto.

E-READER

Antes do lançamento, muitos analistas diziam que o iPad poderia ser para os livros e jornais o que o iPod conseguiu ser para a música. Jobs disse já estar em contato com editoras para vender livros virtuais.

O problema é que já existem aparelhos de leitura avançados, como o Kindle, da Amazon, e o Nook, da Barnes&Noble. E os dois se diferem do iPad. Ambos são direcionados apenas para a leitura, sem a preocupação com a internet ou comunicação. A luminosidade da tela também é diferente, cansando bem menos a vista. O Kindle e o Nook, para serem lidos, precisam de iluminação externa, como se fosse um livro. O iPad terá uma luminosidade igual à de um computador comum, vinda da tela, cansando a vista da mesma forma.

A leitura de publicações grandes, como livros, não deve sofrer grandes alterações. Analistas já diziam ontem que iPad não será um concorrente direto do Kindle ou do Nook.

A expectativa, porém, se dá na imprensa. Jornais e revistas, por terem textos menores, diferentemente de livros, podem ser lidos com mais facilidade em telas de computadores e tablets, sem o problema do cansaço da vista. Alguns jornais e revistas, como o New York Times e as publicações da Condé Nast, já começaram a desenvolver formatos para serem adaptados ao iPad.

Martin Nisenholtz, do New York Times, subiu ao palco durante a apresentação de Jobs e comentou sobre o desenvolvimento de um aplicativo especialmente para o iPad. "Queremos misturar o melhor da edição impressa com a edição digital", disse. Jennifer Brook, também do jornal de Nova York, acrescentou que eles conseguiram "capturar a essência da leitura de um jornal".

O aplicativo, de acordo com o New York Times, permitirá aos leitores gravar artigos no iPad, alterar as dimensões do texto, mudando o número de colunas, arrastando fotos e exibindo vídeos. "Será tudo o que você sempre amou em um jornal, tudo o que você sempre amou da internet e tudo o que você pode esperar do New York Times", afirmou Brook.

TELEVISÃO

E, segundo se comentava ontem nas TVs americanas, o iPad pode afetar ainda mais a indústria da TV. Com a alta resolução da imagem, programas e séries poderão ser assistidos de qualquer lugar com boa qualidade, bem acima da existente atualmente em sites como o YouTube e o Hulu. O Los Angeles Times também lembrou que a tela sensível ao toque de tamanho grande, como a do iPad, permitirá que aplicativos de artistas sejam usados até mesmo para a produção de obras de arte.

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