Arcebispo esteve à frente de movimento social

D. Eugenio organizou transmissão de aulas para as paróquias e reagiu a excessos da ditadura militar

JOSÉ MARIA MAYRINK, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2012 | 03h03

Antes de ser nomeado bispo, aos 33 anos, d. Eugenio foi diretor espiritual num seminário, capelão de presídio e professor de uma escola de serviço social. Questionava-se sobre o sentido de seu trabalho, quando discutia a situação miserável do povo com colegas, "sempre com a preocupação de não separar o espiritual do temporal".

"Será que a Igreja quer isso?", perguntava nas reuniões quando se levantavam ideias ousadas, antes do Concílio Ecumênico de João XXIII. Uma delas era o projeto de reforma agrária de Barra do Punaú, em Vales Úmidos, onde construiu 50 casas numa área do governo do Rio Grande do Norte, com recursos do Misereor, programa dos católicos alemães.

Em seguida, veio o Movimento de Educação de Base, organizado depois de uma viagem à Colômbia, onde funcionava uma rede de escolas radiofônicas. Uma emissora da arquidiocese transmitia aulas para as paróquias. Os rádios eram de bateria, porque no sertão só havia luz de candeeiro. D. Eugenio contou com o apoio de d. Hélder Câmara, que fundava a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

"Eu o chamava de Magro, ele me chamava de Patriarca", lembrou 40 anos depois o então cardeal e arcebispo do Rio, para mostrar como se tratavam tão bem esses dois amigos de posições ideológicas bem diferentes, mas que na evangelização lutavam pelo mesmo objetivo. Para latifundiários do Nordeste, d. Eugenio era comunista e subversivo em 1964, quando as Ligas Camponesas de Francisco Julião ameaçavam incendiar canaviais.

Não era o que pensava o general Antônio Carlos da Silva Muricy, comandante do Exército no RN. Em depoimento gravado em 1994, ele agradeceu o apoio recebido de d. Eugenio, que mobilizou seu pessoal, militantes católicos da universidade e do meio rural, para combater a agitação de Julião e de Leonel Brizola.

Dez anos depois, cardeal e general participariam da Comissão Bipartite, na qual bispos e militares buscavam um entendimento entre a Igreja e o governo no período mais difícil da ditadura. D. Eugenio lutava contra a arbitrariedade desde 1968, o ano do Ato Institucional n.º 5, quando foi transferido de Natal a Salvador.

Em protesto contra a prisão de um padre, proibiu a celebração de uma missa em ação de graças pelo golpe d e1964 e se recusou a receber uma medalha. Esses gestos não impediram, porém, que a Igreja tentasse o diálogo. No caso de d. Eugenio, o esforço começou antes, com Castelo Branco. "Se tivesse havido maior compreensão dos militares e de algumas pessoas nossas no período de exceção, o regime não teria ficado tanto tempo no País", avaliaria mais tarde.

Transferido para o Rio, foi recebido com hostilidade. Padres da arquidiocese, uns 600 signatários, divulgaram abaixo-assinado contra sua posse. Ele não se abalou. Nos anos 1970, acolheu jurados de morte em sua casa e alugou 62 apartamentos, com aval da arquidiocese, para abrigar refugiados políticos.

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