Argentina discreta

A uva Bonarda tem mais classe na Argentina do que na Europa. Nisso, ela segue o exemplo da Malbec, que dá vinhos muito melhores em Mendoza do que em sua origem, no sudoeste da França. A Malbec é a uva "ícone", a que mais representa o vinho argentino. A Bonarda só agora vem ganhando prestígio. Costumava ficar num plano mais discreto, era mais utilizada em vinhos comuns e dificilmente aparecia nos rótulos. Os enólogos argentinos costumam elogiá-la, embora não acreditem que ela chegue aos níveis da Malbec. São mesmo diferentes. A Malbec pode gerar tintos maravilhosos e complexos. Os feitos com a Bonarda são mais leves, sem tanta concentração, mas alegres, fáceis de gostar e com muita fruta. Tintos gostosos, que não devem envelhecer. As duas cepas chegaram à Argentina sem muito alarde. A Malbec passou muito tempo incógnita, simplesmente chamada de "uva francesa". Sua origem é conhecida, pois veio da França, onde desempenha papel mais do que secundário em Bordeaux e é a principal da denominação de origem Cahors. A trajetória da Bonarda é mais difícil de ser traçada. Ela é tão melhor, tão diferente na Argentina, que fica difícil acreditar que se trate da mesma Bonarda italiana, bastante difundida no norte da Itália, notadamente na Lombardia, onde costuma gerar vinhos nada emocionantes, rústicos. Alguns autores dizem que ela é um tipo de Charbono, que, por sua vez, seria aparentada com a Dolceto. Há ainda a tese, citada por José Albano do Amarante em seu belo livro Os Segredos do Vinho, de que ela seja na verdade uma uva francesa, a Corbeau, da região do Jura. Malbec e Bonarda são as cepas mais plantadas na Argentina e continuam ganhando terreno. A Bonarda se dá particularmente bem na zona mais quente, no leste mendoncino, uma zona sem muito prestígio. A Malbec dá bons frutos em todas as sub-regiões de Mendoza. Segundo dados do Instituto Nacional de Vitivinicultura da Argentina, a Malbec ocupava 10.457 hectares em 1990 e em 2005 chegou aos 22.462 hectares. A Bonarda subiu no mesmo período de 12.188 para 18.033 hectares. NIETO SENETINER BONARDA RESERVA 2004 ONDE ENCONTRAR CASA FLORA, RUA SANTA ROSA, 197, 3327 5199 PREÇO R$ 23,70 COTAÇÃO 86/100 Um vinho com boa relação qualidade-preço. A vinícola parece ter boa mão para fazer vinhos com essa uva. Envelhecido em barricas de carvalho francês, o que ficou evidente no aroma. De início, madeira demais no nariz, com algo de coco e de baunilha. Depois de um certo tempo, a fruta foi despontando. Também algo de vegetal e de chocolate. Aroma muito bom, o ponto alto do vinho. Ataque na boca agradável, redondo, deixando entrever também o chocolate e a baunilha. Um paladar "doce", gostoso, que depois foi caindo. Não dos mais concentrados, leve um pouco demais e com final meio rústico. Aparecem toques de amargor e resseca um pouco a boca. Esses pequenos aspectos negativos praticamente desapareceram com o prato, uma bisteca à milanesa. Está pronto para o consumo. 13% de álcool. ALAMOS BONARDA 2005 ONDE ENCONTRAR MISTRAL, RUA ROCHA, 288, 3372 3400 PREÇOR$ 27 COTAÇÃO 88/100 Um ótimo tinto, com excelente relação qualidade-preço. Vinho complexo, gostoso e fácil de beber. A Álamos é uma linha secundária da Catena, uma das melhores vinícolas de Mendoza. Envelhecido em barricas usadas antes pelos vinhos Catena. Aroma complexo, porém não muito potente. Precisou de algum tempo para ele aparecer. Evocações de especiarias (anis) e de ameixa preta em calda. Algo de tostado. Depois de um certo tempo, apareceram aspectos florais, de violeta. Não é um vinho que "encha a boca", pesado, mas sim elegante e que dá vontade de continuar bebendo... Pronto para o consumo. No mesmo nível de exemplares de safras anteriores. Equilibrado, apesar de taninos que ressecam um pouquinho. Bom final. Fica na boca sensação gostosa, floral (de novo, as violetas). 13,5% de álcool. TRAPICHE BROQUEL BONARDA 2005 ONDE ENCONTRAR INTERFOOD, R. BORGES DE FIGUEIREDO, 1133, 6602 7255 PREÇO R$ 32 COTAÇÃO 86/100 Um vinho concentrado, macio e gostoso. A Trapiche é uma das maiores vinícolas de Mendoza, com vinhos de vários tipos e preços. Este é de uma das linhas populares. Segundo o produtor, envelhecido durante 14 meses em barricas novas francesas e norte-americanas. Os toques do carvalho aparecem nitidamente no aroma e na boca. Aroma bom, relativamente intenso e "adocicado". Algo de caramelo, de ameixas em calda, de coco e sugestões de coisas queimadas, tostadas. Um belo aroma. Na boca, redondo, gostoso e equilibrado. Um vinho do qual é fácil gostar. Macio, sedoso, redondo e com boa concentração. Aparecem na boca as notas tostadas e de chocolate. Álcool muito bem comportado. Quente, potente, mas não alcoólico. Cai um pouco no final, com ligeiro amargor. 14% de álcool. NIETO SENETINER BONARDA PARTIDA LIMITADA 2002 ONDE ENCONTRAR CASA FLORA, RUA SANTA ROSA, 197, 3327 5199 PREÇO R$ 73 COTAÇÃO 90/100 O melhor Bonarda que já provei, embora tenha gostado um pouco mais do mesmo exemplar há uns dois anos. A safra de 2002 foi realmente muito boa e este Bonarda está pedindo para ser provado já e agora.Uma edição de luxo, com os rótulos feitos de metal. Melhor no aroma do que na boca. Envelhecido em barricas novas de carvalho francês, que é mais caro e considerado melhor. Aroma exclente e com muitas nuances. Madeira evidente, mas sem dominar demais. Também algo de caramelo e de especiarias, notadamente anis. Depois de um certo tempo, afloraram aspectos florai e minerais.Bem complexo e intenso o aroma. Ótimo na boca. Não é dos mais encorpados e concentrados. Em compensação, elegante, macio e "doce". Equilibrado, longo. Deixa sensação gostosa, bem floral. 13% de álcool.

Saul Galvão, saul.galvao@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2007 | 01h21

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