Argentino rompe impasse de cardeais

Terceira via foi solução para confronto entre defensores de italiano e brasileiro

O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h21

VATICANO - Nem Angelo Scola, nem Odilo Scherer. Ontem, o Vaticano escolheu como papa o argentino Jorge Bergoglio, um nome que não fazia parte de nenhum site de apostas, não era comentado por vaticanistas e sequer era tema de reuniões secretas de cardeais. Mas, segundo o Estado apurou, foi o nome que conseguiu, durante a eleição, romper o confronto e o impasse criado entre dois grupos que haviam se estabelecido nos últimos dias e que se enfrentavam abertamente.

"Metade dos cardeais entrou no conclave sem um nome definitivo a quem daria seu voto", disse o vaticanista Marco Politi. "A grande questão era como esse grupo reagiria e hoje descobrimos que eles optaram por uma terceira via."

Nos dias que precederam o conclave, houve uma polarização do debate. De um lado, o brasileiro d. Odilo Scherer era o nome da Cúria, mais conservador, apoiado por quem estava no poder. De outro, o italiano Angelo Scola se apresentava como o nome da oposição. O choque frontal entre os grupos, porém, com acusações de vazamento de informações à imprensa e cobranças sobre a gestão do Banco do Vaticano teria criado uma sensação entre os cardeais de que nenhum dos dois grupos conseguiria um consenso.

Tanto Scola como Scherer começaram a votação com força. A certeza de uma vitória de Scola era tanta que, logo após o anúncio do Habemus papam, a Conferência Episcopal Italiana emitiu um comunicado sobre a "notícia da eleição do cardeal Angelo Scola como sucessor de Pedro".

Ao longo das votações secretas na Capela Sistina, porém, a realidade é que nenhum dos dois conseguia avançar no sentido de garantir os 77 votos necessários para ser eleito papa. Cardeais saíram em busca de alternativas e, apesar de estar fora da idade que se havia declarado como ideal (preferencialmente mais jovem, para evitar um papado muito breve), Bergoglio começou a coletar votos dos outros cardeais que também estavam descontentes com a Cúria, mas não estavam inclinados a apoiar Scola.

Com 76 anos, perfil de pastor e caráter de simplicidade, Bergoglio acabou sendo privilegiado. Muitos, porém, deixaram o Vaticano ontem com a impressão de que este foi o "papa possível" de ser eleito, e não necessariamente o "papa ideal". Dada a idade avançada de Bergoglio, é possível que seu papado se caracterize como mais um período de transição na Santa Sé - algo que se acreditava ter terminado com a renúncia de Bento XVI.

Andrés Alvarez, vaticanista argentino em Roma, destaca que o voto veio de cardeais que não jogavam nos times nem de Scola nem de Scherer. "Sabíamos que as reuniões estavam ocorrendo e que esses dois grupos estavam mobilizados para buscar votos a seus candidatos. Mas não sabíamos que havia uma maioria silenciosa que não apoiava a nenhum dos dois grupos."

Segundo ele, cardeais italianos se dividiram e nem todos apoiaram a Scola. "Bergoglio teve muitos votos dos europeus", disse. Sobre o comportamento dos latino-americanos, o especialista admite que muitos evitaram inicialmente o nome de Bergoglio. "Mas o que sabemos é que, nas últimas votações, optaram por apoiar o argentino."

Renovação. Para o vaticanista John Thavis, Bergoglio é a "real oposição" à Cúria no poder. "Não há uma oposição em termos de doutrina. Mas na administração do Vaticano e no modelo de gestão, sim", disse. "Bergoglio será uma transformação radical na opulência da Igreja, uma declaração de rejeição ao estilo de cardeais como Scola ou Bertone. Se ele tiver a capacidade de implementar sua visão de Igreja, muitos serão surpreendidos."

O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse que o novo papa, que adotou o nome Francisco, telefonou ontem mesmo para o papa emérito Bento XVI e se encontrará com ele em breve, num sinal de respeito. No conclave de 2005, o argentino ficou em segundo lugar, atrás de Joseph Ratzinger. Agora, ambos são papas. / JAMIL CHADE

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