Arrasos parecidos, socorros desiguais

Beirute e Porto Príncipe foram destruídas. Mas o Líbano é rico, o Haiti, pobre. Enquanto uma se reergueu, a outra segue na lama

Gustavo Chacra,

18 de dezembro de 2010 | 11h36

 

Uma amiga me convidou para almoçar em Beirute no início deste mês. Em outros anos, iríamos a algum restaurante de Ashrafyeh, o sofisticado bairro cristão da capital libanesa, equivalente aos Jardins ou à Recoleta. Dessa vez ela indicou outro lugar. "Você me encontra no restaurante People, que fica na cobertura da loja Aishiti", disse a jovem libanesa de origem armênia, citando a loja que seria uma Daslu dos cedros, localizada no centro reconstruído de Beirute, que até pouco tempo jamais integraria a lista de prioridades da elite libanesa. No restaurante, em vez de quibe cru, steak tartar, além de vista para o Mediterrâneo e os montes do Líbano, com mulheres elegantes que poderiam estar no Balthazar de Nova York.

 

Cerca de 15 anos atrás, circulei nessas mesmas ruas pela primeira vez. Eram prédios com marcas de bala, mato crescendo em ruas abandonadas, igrejas em ruínas e nenhum pedestre nas ruas. Nem mesmo os guerrilheiros. Ao longo dos anos seguintes retornei diversas vezes a Beirute, acompanhando a reconstrução que teve seus reveses, incluindo uma ocupação do Hezbollah e de seus aliados cristãos e um conflito contra Israel. Mesmo depois de mais uma guerra, em 2006, e o risco de outra a qualquer momento, a capital libanesa se transforma mais uma vez no centro cultural e boêmio do Mediterrâneo Oriental, com seus hipsters e playboys, sunitas e xiitas, cristãos e drusos, falando na língua do hi-kifak-ça va, misturando o árabe, o inglês e o francês em meio a vinhos do Beka, cerveja Almaza, arak ou mesmo um suco de jelab.

 

Na semana anterior ao meu jantar em Beirute acompanhei uma patrulha brasileira no centro destruído de Porto Príncipe, capital do Haiti. Os oficiais e soldados discutiam como seria quase impossível reconstruir aquela que um dia já foi a Pérola do Caribe. Eu havia estado ali também na época do terremoto. Percebi melhoras, apesar de ainda enxergar Porto Príncipe como a imagem do apocalipse. São quarteirões e quarteirões de ruínas, fachadas de farmácias no chão, supermercados com comida apodrecida, haitianos vagando como zumbis, sem diversão nem perspectiva de futuro, ilhados entre o oceano e a reforçada fronteira dominicana. Em alguns locais havia documentos perdidos de sobreviventes ou vítimas. Em outros, calcinhas no entulho, deixando exposta a intimidade de alguém que talvez tenha morrido nos abalos da Ilha de Hispaniola.

 

Ainda se veem corpos, mas não de mortos no terremoto. São vítimas da cólera abandonadas nas calçadas. Devido ao alto preço de um funeral, elas são queimadas ali mesmo, na frente das crianças, quando não são crianças elas próprias. Em Porto Príncipe praticamente não existem espaços livres. Todas as praças estão ocupadas por acampamentos onde vivem centenas de milhares de haitianos que viram suas casas ou barracos virarem escombros. Na orla, há uma favela com porcos diante de um mar caribenho que mais parece um esgoto a céu aberto. Bebês ficam jogados em um chão que serve de cama, mesa e banho para a família.

 

O tremor faz aniversário de um ano no dia 12 de janeiro. Beirute demorou mais de uma década para se reerguer dos 15 anos de guerra civil. Não dá, portanto, para cobrar que o Haiti esteja de pé novamente. A pergunta é se o modelo aplicado na capital libanesa poderia ser repetido em Porto Príncipe. As duas têm similaridades, além do histórico de destruição. A haitiana foi colônia francesa, enquanto Beirute esteve sob mandato francês. Ambas estão à beira-mar, com montanhas que se erguem depois de uma estreita faixa de planície. E as remessas da diáspora são fundamentais para as economias dessas cidades. Mas esses pontos comuns não são suficientes quando se fala em reconstrução. Aí as diferenças parecem pesar mais.

 

 

O Líbano tem um dos mais sólidos sistemas financeiros do mundo árabe. Há universidades de prestígio, como a Saint-Jouseph e a Universidade Americana de Beirute. Depois de Israel, os libaneses têm os melhores médicos do Oriente Médio. Já o Haiti não possui sistema de saúde. Depende de ajuda de entidades como a Cruz Vermelha. Suas universidades são fracas e muitos prédios de faculdade desmoronaram no terremoto. Não há classe média. E a diáspora, apesar de contribuir com a economia, não integra a elite em outros países, como no caso libanês. Apenas para ficar num exemplo, Carlos Slim, um dos homens mais ricos do mundo, é filho de libaneses. Há conterrâneos milionários seus de São Paulo a Freetown, de Sydney a Paris, de Detroit a Abu Dabi (curiosamente, as raras fortunas haitianas costumam ser de pessoas com origem no Líbano).

 

Rafik Hariri era um desses bem-sucedidos na diáspora. Nascido em uma família pobre de Sidon, mudou-se para a Arábia Saudita, onde fez fortuna na área da construção. Durante a guerra civil permaneceu distante do Líbano. Retornou após os acordos de Taif, em 1989, que ajudaram a encerrar formalmente o conflito. Tinha bilhões no bolso. Eleito primeiro-ministro, decidiu levar adiante a reconstrução de Beirute em uma mistura da iniciativa pública, de seu governo, com a privada, de sua empresa Solidere. Em 1994, começou o processo.

 

O projeto de Hariri visou a adquirir os imóveis destruídos no centro da capital libanesa em troca de ações da Solidere. Assim, ele pôde reerguer quase todos os edifícios destruídos ao longo da década seguinte, incluindo igrejas e mesquitas. Até mesmo a sinagoga está praticamente completa, depois de um esforço conjunto com a comunidade judaica. Embaixadas, incluindo a brasileira, também se transferiram para a região, que recebeu o apelido de Solidere.

 

Nem tudo foi perfeito nesse processo. Opositores de Hariri o acusavam de corrupção. Outros questionaram a gigantesca mesquita construída na praça dos mártires, que ofuscou torres de igrejas já existentes. Muitos urbanistas dizem que há um ar de artificialidade na região, comparando-a a uma espécie de Disneylândia ou Dubai. Alguns proprietários também questionaram o monopólio da Solidere e se recusaram a vender seus imóveis, como o Hotel Saint George - ironicamente, o local onde Hariri foi assassinado em atentado em 2005, que ainda segue em pedaços.

 

Em 2006, quando tudo caminhava para a normalidade, a guerra de Israel contra o Hezbollah arrasou a região sul de Beirute, apesar de ter deixado o centro intacto. A organização xiita, com auxílio de dinheiro da diáspora, do Irã e do Qatar, também conseguiu reerguer Dahieh.

 

No Haiti, não existe um Hariri ou milionários no estrangeiro com capacidade de bancar a ressurreição. Todo o projeto dependerá de ajuda internacional. A destruição também é bem maior que a de Beirute, cujo epicentro de caos se restringiu à área central. Talvez daqui a 15 anos seja possível ir a um restaurante projetado por arquitetos renomados em um hotel diante do Palácio Nacional de Porto Príncipe, mais uma vez de pé. Por enquanto, como dizem os militares brasileiros, isso ainda é um sonho. Porto Príncipe segue sendo o apocalipse. Diferentemente das guerras libanesas, suas tragédias ainda se recusam a dar trégua.

 

GUSTAVO CHACRA É CORRESPONDENTE DO ESTADO EM NOVA YORK

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