Arte de vitrine

Roberto Camasmie, que se define marqueteiro e multimídia, amplia sua aquarela para muito além das socialites dos Jardins

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2011 | 00h34

Que se proclamem fúteis as previsões separatistas dos astrólogos sobre o matrimônio de William Windsor e Kate Middleton. Enquanto o primogênito de Charles não balança a relação com traições fugazes, que talvez exijam daqui a alguns anos boa dose de paciência e devoção da princesa, o mundo retrata os nubentes como lhe parece: in love. Apenas na Grã-Bretanha, o casal apaixonado virou estampa de canecas e camisinhas, um par de bonecos de tricô, pizza com véu de cogumelo e terno de salame e um grafite punk emoldurado pelas cores da bandeira britânica, com os noivos de cabelo em pé e a rainha Elizabeth II de spray em punho.

No Brasil, entre outros, Roberto Camasmie também se pronunciou. Em sua galeria na esquina da Bela Cintra com a Lorena, região paulistana dos Jardins, o artista pendurou uma tela de William e Catherine abraçados ternamente, cópia fiel da foto oficial feita pelo peruano Mario Testino. Sobre eles, porém, o brasileiro pincelou uma técnica mista envolvendo óleo, acrílico e pastel. "Me inspirei na escola impressionista de Claude Monet", explica, semiabstratamente. A dose de super-realismo surge na mão esquerda da moça: um anel de safira de 16 quilates escoltada por 14 diamantes, cópia infiel da joia ganha por Kate na ocasião do noivado com William. O anel original, criado em 1980 pela Garrard, também traz 14 diamantes, mas rodeando uma safira de 12 quilates. Vale cerca de R$ 75 mil e precisou de um ajuste para não cair do dedo anular de Kate, mais esguio que o da falecida futura sogra, Diana, de quem Kate herdou o ornamento. O anel da Vivara, feito sob medida para a tela de 1,60 m X 1,40 m, valeria R$ 157 mil.

A intenção de Camasmie não é presentear os pombinhos com a obra. Não desta vez. Em 1981, o pintor viajou para Londres para entregar um perfil de Lady Di, em nanquim sobre veludo, nas mãos do embaixador Roberto Campos, que encomendou o desenho como um mimo brasileiro às bodas de Sua Alteza, o príncipe Charles, com Diana. "O embaixador era alguma coisa da cavalaria da rainha, uma pessoa muito importante dentro de Buckingham, ele me ajudou muito com isso", diz Camasmie, presumindo que o casal real chegou não só a receber como a guardar o presente do embaixador.

Seu retrato impressionista atual, em moldura palaciana folheada a ouro, não é para inglês ver. É para, diz ele, atender à demanda do público brasileiro. "O povo quer saber como o Camasmie interpreta as personalidades", afirma, num surto de terceira pessoa. Ele se compara às propagandas da Bombril na contracapa de revistas semanais, das quais o leitor esperava alguma ilustração divertida do ator Carlos Moreno sobre um fato da semana. "Foi assim com vários, mais recentemente tivemos o Paul (o McCartney) e o Obama, com quem fiz um trabalho bem pop, bem Andy Wharol", relembra.

Sua galeria não é vazada à toa, portanto. Nem um banco rústico de madeira, voltado para ela, está na calçada por estar. Dá para ver do lado de fora patchworks gigantes de Rita Hayworth e Humphrey Bogart e um menor, do banqueiro Gastão Vidigal, "inspirados em estilos variados, como art nouveau e pop art", que fizeram parte da exposição Mitos de Pano, de 2007. Sobre uma bancada branca, um ou outro abajur da vernissage de 2010, "inspirados na Escola Bauhaus, com plena referência psicodélica", iluminam figuras femininas e flores exóticas, "sob o brilho de personagens iluminados, como Jimi Hendrix e Janis Joplin". Seria arte cinética, mas ele repensa o termo: "A minha não tem movimento, mas tem luz; seria uma arte de luz".

No extremo oposto, um retrato mais normalzinho, de um casal de noivos fora da mídia, chama a atenção mesmo assim ? ou por isso mesmo. É uma entre as tantas encomendas que Camasmie recebe para retratar a sociedade paulistana. O interessado manda uma foto e ele cria em cima, mas não muito. "Trabalho nisso há 41 anos e percebo que o público quer uma coisa clássica, com pose, em óleo sobre tela", diz. "Eu consigo um trabalho de vanguarda apenas com quem não tenho o rabo preso." Seu trabalho custa de R$ 1,5 mil a R$ 13 mil, dependendo do tamanho. Quando pergunto sobre a quantidade de encomendas, ele rebate, novamente em terceira pessoa: "Não estou vendendo um supermercado; o Camasmie é muito rotulado ao portrait, mas ele não faz só isso".

De fato, Camasmie está cada vez mais multimídia, como ele mesmo se rotula. No rodapé do seu site corre uma carrada de produtos à disposição para licenciamento. São rasteirinhas, abajures, bolsas, leques, joias, jogos americanos, óculos, malas, agendas, vidros com essências aromáticas e tupperwares, que ele pronuncia "teipeueres". Aliás, as demonstradoras dessas vasilhas plásticas já venderam, pelas suas contas, 60 mil potes ilustrados por ele, a R$ 19,90 cada um. Camasmie ainda vislumbra, para o segundo semestre, estampar uma coleção com carros raros de colecionadores e peças de lingerie. "É para a arte estar um pouquinho mais acessível ao público", justifica.

Arranjos de casamento. Descendente de família síria com libanesa, ele começou sua carreira aos 16 anos, quando a mãe, Jacira, se mostrou maravilhada com o quadro de Magnólia Atallah assinado pelo pintor alemão Tony Koegl, que retratava a alta sociedade e celebridades. Decidiu fazer o mesmo, a nanquim, intercalando os quadros com decorações de casamento para a mesma clientela. Nunca fez um curso de arte. Atribui sua produção a um dom inato, cujo primeiro reconhecimento teria sido a encomenda de um quadro da rainha Elizabeth pela então primeira-dama do Estado, Maria do Carmo de Abreu Sodré. Camasmie botou o trabalho embaixo do braço e foi na direção do Terraço Itália, por onde a rainha daria o ar da sua falta de graça. Parou no meio do caminho, mais exatamente na exposição de Luiz Jasmin, retratista do society carioca. "Vi aquele homem lindo, de calça bege e sapato branco descendo a escada, e eu ali, panfletando meu trabalho", disse, em entrevista ao Garden Girls, "programa de entrevistas com quem acontece no bairro Jardins, São Paulo, Brasil". Falando em programa de TV, Camasmie também teve o seu espaço na Rede Bandeirantes, no programa Ela, durante seis anos. Fazia entrevistas sobre arte e decoração, algo que gostaria de repetir, tivesse ele um convite de porte.

Em 1990, Camasmie inaugurou uma módica galeria na Av. Juscelino Kubitschek. Quatro anos depois abriria a atual, no point da Bela Cintra, propriedade sua, de papel passado. Na entrada, clientes limpam os pés num tapete com um brasão acortinado. "É o meu logo, foi uma coisa que criei faz bem uns 15 anos, eu estava desenhando, pus o RC e comecei a colocar nos cartões e tudo." Mais ao fundo, um mural de fotos no escritório registra suas passagens pela Caras, o cartão de Natal dos Grimaldis (com uma foto enviada pelos príncipes de Mônaco diante de um retrato seu), Lula pintado com geleia de amora, Sarkozy delineado com foie gras comprado na Casa Santa Luzia, Elba Ramalho com os filhos, Roberto Justus, Ana Maria Braga, Hebe, Marília Pêra, Gilberto Kassab, Marta Suplicy, José Serra, Marina Silva, a mãe, Jacira, em várias versões, Marisa Letícia com o quadro de Bento XVI encomendado por ela, Ruth Cardoso ao lado de seis faces suas, uma homenagem do pintor.

"Roberto não para", diz Eliana, sua assistente faz bem os mesmos 15 anos do brasão, de plantão na galeria. O patrão estava em Punta del Este, para onde viaja com certa frequência e de onde falou entrecortadamente ao telefone com a reportagem. Àqueles que consideram Camasmie cafona, brega, marqueteiro ao extremo e afins, a amiga Helô Machado, ex-editora da Folha Ilustrada, recorda Pierre Cardin, que desenhou de uniforme de aeromoça ao próprio avião. "O Romero Britto teve uma sorte maior porque estourou nos Estados Unidos", compara. Helô tem em seu apartamento um sofá estilo provençal pintado com perfis femininos, além de uma borboleta tridimensional, uma gravura da série Musa dos Sonhos, um retrato clássico seu sobre fundo marmorizado e outro em nanquim que não quis desenrolar, tudo by Camasmie.

O pintor Antonio Henrique Amaral, que conviveu com Ivan Serpa, Djanira, Bandeira, Goeldi e Portinari, lembra que Di Cavalcanti, Flávio Carvalho e o próprio Portinari retrataram pessoas, e bem. Mas hoje Amaral não aponta muitos artistas interessantes desse tipo no Brasil. Quanto a quem utiliza modelos famosos para se promover, não acha legal. Seria um recurso "muito comercial demais", mas que também depende do grau de cultura e exigência do público. "Se o artista gosta de fazer e se sente à vontade, é uma opção, mas isso se inserir na história da arte brasileira, aí é duvidoso demais."

Na esquina, um casal estaciona para tirar uma foto ao lado de William e Kate. Numa prateleira da galeria, dois rolos de papel higiênico pintados ? um com uma deusa, outro com flores campestres ? dão pinta de mais um desenrolar nos investimentos de Camasmie.

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