Artista que agigantou aranhas morre aos 98

Franco-americana, que ganhou projeção internacional na década de 1970, sofreu um ataque cardíaco

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2010 | 00h00

LOUISE BOURGEOIS 1911 - 2010

Conhecida, sobretudo, por suas esculturas em que agigantou a figura de aranhas - há uma delas em exposição permanente no Museu de Arte Moderna de São Paulo -, a artista franco-americana Louise Bourgeois morreu ontem, aos 98 anos, no Beth Israel Medical Center em Manhattan, Nova York, cidade onde vivia desde 1938. A morte foi anunciada por Wendy Williams, diretora do estúdio da artista. Louise sofreu um ataque cardíaco.

Apesar da vasta carreira, a artista ganhou verdadeira projeção internacional a partir da década de 1970. Defendia sua arte como método terapêutico, de "exorcismo de demônios" e, sendo assim, um universo psicológico e simbólico povoou suas criações diversas, no campo da escultura - pela qual ficou reconhecida -, da gravura e de instalações. Temas como sexualidade e identidade sempre prevaleceram nas produções da artista, que em 2008 teve grande retrospectiva da carreira no Guggenheim de Nova York.

Foi a raiz familiar - e certos traumas que ela elencou - a fonte inesgotável das criações de Louise Bourgeois. Nascida em 25 de dezembro de 1911, em Paris, França, sua mãe, Josephine, era tecelã e seu pai tinha como amante a professora de inglês de seus três filhos, que vivia na mesma casa. A história marcou profundamente a artista, que viria, tantos anos depois, lançar o livro Destruição do Pai, Reconstrução do Pai (editora Cosac Naify, 2000), reunindo escritos da artista e entrevistas com ela realizados entre 1923 e 1997. As aranhas (Spiders) de Louise simbolizavam, como ela mesma dizia, a figura de sua mãe, ao mesmo tempo, a tecelã incansável, mas submissa à traição do marido.

Formação. Na França, Louise começou sua formação estudando matemática na Sorbonne, em 1932, mas abandonou o curso para se dedicar à pintura na École des Beaux-Arts, na Académie de la Grande-Chaumière e na École du Louvre. Sabe-se que, na época, foi assistente do artista Fernand Léger. Em Paris, casou-se com o historiador de arte americano Robert Goldwater (com quem teve três filhos) e em 1938 se mudou com ele para Nova York. Na América (tornou-se cidadã americana em 1951), estudou por dois anos na Art Students League e na década de 1940, além de exibir vez ou outra suas gravuras, deu início à criação de peças escultóricas em madeira. Sua primeira exposição individual de pinturas ocorreu em 1945, em Nova York.

Como Marcel Duchamp, o criador do ready-made, Louise também estava no período pós-Guerra na Nova York que via nascer as coleções de seus novos museus e recebia os criadores europeus exilados, remanescentes das vanguardas modernas. Em meados da década de 1940, a artista trabalhou no Ateliê 17 como impressora, local onde conheceu o arquiteto franco-suíço Le Corbusier, e com o artista espanhol Joan Miró. Já nessa época, Louise decidiu abandonar a pintura para se dedicar à escultura. Em 1949, exibiu, na Peridot Gallery, sua série Personagem, só de obras escultóricas em forma de totens.

Figuração simbólica. Apesar de na década de 1950 ter se envolvido com a onda da abstração - e ter dado um tempo do círculo de criadores para dar aulas -, nos anos de 1960 Louise retomou a criação escultórica elegendo uma figuração simbólica com forte referência ao corpo e a labirintos - nesse sentido, também são importantes suas instalações denominadas Cells (Células). Experimentou materiais como gesso, resina e látex, além do mármore (que conheceu em viagem à Itália) e da madeira. Femme Couteau (Mulher Faca), de 1962, é uma obra refinada e emblemática desse período, assim como Janus Fleuri, de 1968, que, de referência grega, funde a representação híbrida dos órgãos genitais feminino e masculino. A artista, ainda, se dedicou a performances.

A partir do final da década de 1970, sua obra começou a ter projeção cada vez maior, tornando-se uma referência para artistas diversos. No Brasil, a atriz Denise Stoklos realizou, em 2005, o espetáculo Louise Bourgeois: Faço, Desfaço, Refaço, uma homenagem à artista. As obras de Louise, além das esculturas das aranhas, criadas entre 1994 e 2003 - entre elas, Mamam, com mais de 9 metros de altura - e que se tornaram uma marca, pertencem hoje a instituições diversas, como o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA, onde fez sua primeira retrospectiva em 1982-83), a Fundação Guggenheim e a Tate de Londres. E já de longa idade, em 1993, Louise representou os EUA na Bienal de Veneza. / COLABOROU MARIA EUGÊNIA DE MENEZES e NYT

REPERCUSSÃO

José Resende

Artista plástico

"Louise deixa um trabalho notável, compatível com a sua longevidade. É uma referência do que pode ser o trabalho de um artista e do que pode significar a paixão pela arte."

Adriana Varejão

Artista plástica

"Era uma artista contundente e intensa. Suas esculturas e desenhos falam do corpo feminino, da memória feminina. Tem uma obra estranha e muito bela, com uma produção rica sobre vários materiais. Sua obra me transformou, é impossível ficar indiferente a ela. Foi uma das grandes figuras da arte."

Denise Stoklos

Atriz

"Louise construía uma relação de liberdade e autonomia com as pessoas, a mesma liberdade que expôs nas obras. Ultrapassava qualquer genialidade. Sua arte não dependia do suporte: estava no que ela tocava, onde ela estava, na sua presença. Desde que descobri sua obra não consigo me separar dela."

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