'As Cariocas' estreia com elenco de belas atrizes

Daniel Filho recria com bossa o universo das personagens de Sérgio Porto no seriado que estreia na Globo

Patrícia Villalba/ RIO,

19 Outubro 2010 | 07h00

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Definido por poetas contemplativos de ocasião como "fábrica de mulher bonita", o Rio de Janeiro é cenário e personagem do seriado As Cariocas, que estreia na terça-feira, às 23 horas, na Globo. Na volta à emissora, depois de dez anos e alguns campeões de bilheteria nos cinemas, o diretor Daniel Filho foi buscar o charme da cidade capturado por Sérgio Porto no livro que dá nome à série, escrito em 1967 e assinou com o próprio nome (não seu pseudônimo famoso - Stanislaw Ponte-Preta).

 

Embora o noticiário imprima hoje em dia uma imagem nem um pouco glamourosa e bem distante daquele Rio de Sérgio Porto, a aura dourada da cidade é resistente e ainda tem muito a ver com o humor especial de Stanislaw Ponte-Preta. "Fizemos adaptações, pois as histórias eram da década de 60. E muitas histórias, agora praticamente 50 anos depois de escritas, não eram tão intrigantes", observa Daniel Filho, em entrevista ao Estado. "Mas o espírito do Sérgio Porto é intrigante, a crítica que ele faz, o jeito irreverente de tratar as histórias poderiam permanecer. Ele era gozador, irônico, irreverente."

 

Coprodução da Lereby Filmes (de Daniel Filho) e Globo, As Cariocas tem texto final de Euclydes Marinho, com quem Daniel trabalhou em Malu Mulher, em 1980. São dez episódios, cada um centrado numa mulher diferente e localizado em um bairro da cidade. O diretor escolheu com cuidado as atrizes para interpretar as dez protagonistas: Alinne Moraes, Paola Oliveira (na foto à esquerda), Alessandra Negrini, Adriana Esteves, Cíntia Rosa, Grazi Massafera, Fernanda Torres, Sônia Braga, Angélica e Deborah Secco. "Não há como negar que elas são as top ten de muitos brasileiros", brinca Daniel.

 

Os seis contos do livro de Sérgio Porto - A Grã-fina de Copacabana, A Noiva do Catete, A Donzela da Televisão, A Currada de Madureira, A Desquitada da Tijuca e A Desinibida do Grajaú - deram origem às dez novas histórias. "A adaptação acompanha as mudanças na cidade. Temos, por exemplo, um episódio passado na Mangueira que fala sobre as lan-houses (A Internauta da Mangueira)", detalha Cris D’Amato, que dividiu a direção com Daniel e Amora Mautner.

 

Corpo e alma. Para Daniel, é muito relevante a decisão de dividir essa série sobre mulheres com duas diretoras. "Sempre pensei que um projeto de dez episódios deveria contar com pelo menos mais dois diretores. O desafio de As Cariocas era fazer uma série com dez histórias e mulheres diferentes, mas com uma unidade, um programa só", explica. "Então, aposto na visão feminina com duas diretoras. Já fiz os seriados Mulher e Malu Mulher, já tenho uma carteirinha para falar sobre o assunto."

 

Com um elenco de 120 atores, que não se repetem pelos episódios - a não ser o narrador, o próprio Sérgio Porto com a voz do próprio Daniel Filho -, As Cariocas é um acontecimento televisivo. Estarão em cena, por exemplo, Sônia Braga e Antonio Fagundes, repetindo o casal Júlia e Cacá, inclusive nos nomes, da novela Dancin’Days, que Daniel dirigiu com grande sucesso em 1978. "Foi uma homenagem", resume o diretor.

 

Além de Sônia, várias atrizes do elenco voltam a ser parceiras do diretor. Regina Duarte fez o seriado Malu Mulher (1980) e agora está em A Adúltera da Urca. Deborah Secco, que era menina quando esteve no seriado Confissões de Adolescente (1994), agora é Alice, de A Suicida da Lapa. Angélica não trabalhava com Daniel desde o filme Zoando na TV (1998) e aparece como a Maria Teresa de A Traída da Barra, em que contracena com o marido legítimo, Luciano Huck.

 

Mesmo rejuvenescidas, duas personagens originais de Sérgio Porto permanecem. Alinne Moraes é a Nádia de A Noiva do Catete; Gazi Massafera, a Michelle de A Desinibida do Grajaú (leia entrevista com Grazi na pág. 6 e relembre a produção para o cinema na pág. 7).

 

Quando Daniel Filho comprou os direitos de As Cariocas, em 2008, pensava em fazer um filme. "Mas nesse meio tempo, a TV Globo passou a fazer coprodução. A coprodução de produtos era um sonho meu. Eu via nisso uma coisa importante para a televisão, que é o que é feito em todos os outros países", observa.

 

Dos 60 anos da televisão brasileira, ele passou os últimos dez fora. Mas trabalhou tão ativamente e com tanto sucesso, que diz não encarar esse projeto como uma volta à TV. "Não considero que esteja voltando. Ainda posso ser visto como um homem da TV. E sou."

 

 

 

 

ENTREVISTA - Grazi Massafera

"Não fico tentando provar nada para ninguém"

 

Nascida em Jacarezinho, no interior do Paraná, Grazi Massafera adorou viver uma carioca tão autêntica e despudorada como a Michelle de A Desinibida do Grajaú, de As Cariocas. "É um universo que não conheço muito bem, mas que venho observando desde que mudei para cá", diz ela ao Estado, no intervalo de gravação do seriado, no Projac.

 

Grazi acabava de protagonizar a cena em que Michelle lava o carro que ganhou num concurso de beleza na porta de casa, vestindo um short curto – o suficiente para causar rebuliço entre as vizinhas invejosas.

 

É inevitável que, apesar das diferenças entre Jacarezinho e o Grajaú, a atriz se sinta próxima de Michelle, como ela uma peregrina dos concursos de beleza desde a infância. Nesta entrevista, Grazi relembra os incontáveis secadores de cabelo que ganhou na vida e diz por que está tão feliz em trabalhar com Daniel Filho. "O nome dela é uma escolha pessoal minha.

 

Acredito na atriz que surge, com talento e beleza", declara o diretor, para quem ainda duvida que a moça chegou lá.

 

 

A vida da Michelle muda quando ela ganha o concurso de beleza. Sua vida mudou muito quando ganhou o primeiro concurso?

 

Foi o Miss Boneca Viva. Não mudou muito, porque eu só tinha 9 anos. Mas valeu por ter tido o incentivo dos meus pais.

 

 

Qual o primeiro prêmio que ganhou?

 

Um secador de cabelos. Só ganhei secador de cabelo nessa vida! Quando era carro, eu perdia. Participei do Miss Paraná duas vezes. A primeira era um carro, perdi. Na segunda vez, não tinha prêmio – e eu ganhei.

 

 

A desinibida de Sérgio Porto era bem diferente da Michelle. Como foi essa mudança?

 

A gente tentou fazer uma versão mais atual, porque hoje a chegada de uma mulher como aquela ao Grajaú não causaria impacto. O que não muda é inveja das outras mulheres do bairro quando ela chega. Fizemos a Michelle mais solta.

 

 

Como criou a sua desinibida?

 

É um universo que não conheço bem, porque fui criada no interior. Mas observo muito as mulheres daqui. A Michelle é uma caricatura, é um pouco aquela menina que gosta de ir aos bailes funk e é um pouco ingênua. Fui procurar algumas gírias cariocas, mas as que caibam em mim, então falo ‘qualé?’ e ‘e aí, nem?’.

 

 

No tempo que está morando no Rio, já conseguiu captar o espírito carioca?

 

Ah, sim... O Rio é muito forte, não tem como você cair aqui e ficar indiferente. Uma coisa que a (atriz) Andreia Cavalcanti, que está me ajudando a preparar a Michelle, diz é que até a fala do carioca é meio como a onda do mar, tem um gingado. Senti um choque no começo, mas já estou aqui há sete anos. Passei esse tempo todo observando a cidade e agora chegou a hora de juntar isso tudo que percebi.

 

 

Acha que a trajetória da Michelle tem a ver com a sua?

 

É uma sátira, digamos, ao que eu passei nos concursos de beleza. É uma delícia rir das coisas que a gente já fez.

 

 

Como recebeu o convite do Daniel Filho?

 

Foi quando estava terminando Tempos Modernos. Estava cansada, porque foi uma novela muito difícil, mas não podia perder a chance. Há um tempo, vi toda a série A Vida Como Ela É, e admiro muito o trabalho do Daniel.

 

 

Ficou intimidada?

 

Sim. Mas tenho de controlar isso, para não chegar aqui travada e atrapalhar na hora do trabalho. Mas estou muito feliz, era tudo o que eu precisava depois de um trabalho tão difícil.

 

 

Por que Tempos Modernos foi difícil?

 

Porque teve várias mudanças, e tive de ir me adequando rápido. É bom porque cria um jogo de cintura, tento reverter isso para o lado bom. A Deodora começou como personagem de uma história em quadrinhos, depois ela foi vilã, depois mocinha e até robô – não chegou ao público, mas em algumas cenas, atuei como se ela fosse um robô, acredita?

 

 

A experiência fez você se sentir testada?

 

Acaba que você também se põe em teste. Sabe o que é? Uma coisa que tento sempre fazer é não provar nada para ninguém, porque acho que é muito desgaste de energia. Procuro dar o melhor de mim, é uma coisa mais interna. Tento me superar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.