'As pessoas tratam bem os mais velhos'

Anna Carvalho, porém, se queixa das calçadas

BRUNO DEIRO, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2012 | 03h04

"Viver mais é difícil", diz Anna Lyrs Carvalho, de 86 anos, que há cinco anos escolheu morar em um residencial para idosos para tentar driblar a solidão. Depois da morte do marido, a aposentada viveu por um ano e meio sozinha em uma casa de três andares no Sumaré. "Mesmo com empregada e acompanhante para dormir, me sentia só", diz Anna.

O convívio com outros idosos tem suprido essa carência, mas tirou um pouco da independência que Anna se orgulhava. Nos passeios, gostava de ter prioridade na fila do banco e pagar meia entrada no cinema e no teatro. "As pessoas, em geral, tratam muito bem os idosos. Sempre levantavam para eu sentar quando estava cansada."

O problema, no entanto, era outro. "As calçadas são um obstáculo para os idosos em São Paulo. Às vezes, deixava de sair para evitar quedas", afirma.

Na nova vida, ela afirma que os gastos são menores. "Era um custo alto manter uma casa inteira. Além disso, tinha de pagar uma pessoa para dormir comigo e saía caro. Eram R$ 50 por noite e aos fins de semana o valor era dobrado", afirma a aposentada, que aos sábados e domingos recebe a visita dos filhos e netos. "Agora, a solidão é menor e quando eu quero vou para o meu quarto para ficar sozinha."

Saulo Guimarães, que vive no mesmo residencial, diz que tem outros meios para evitar a solidão. "Tenho outros refúgios, como as amizades, minhas leituras e a música. São a melhor maneira de escapar da solidão", afirma. Há dois meses, após sofrer uma pneumonia, ele decidiu por conta própria se mudar.

"Do ponto de vista de São Paulo, vejo que vai ser cada vez mais difícil para o idoso viver na cidade, por conta da falta de qualidade de vida."

A vontade de seguir no mercado de trabalho, no entanto, permanece. E ele acredita que há perspectivas de que a experiência dos idosos, nos próximos anos, seja reconhecida.

"Até pouco tempo atrás não se dava valor, mas vejo que o meio empresarial tem começado a prestar atenção aos mais experientes. Até porque custa muito caro treinar os mais jovens", afirma o aposentado. "Eu creio que poderia dar minha contribuição em várias áreas. Se tivesse um convite hoje, toparia na hora."

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