Às vésperas do conclave, cardeais têm 'dia de campanha' em igrejas de Roma

Às vésperas do início de um conclave crítico para o futuro da Igreja, o italiano Angelo Scola e o brasileiro Odilo Scherer concentram as atenções em Roma e dão indicações que entram para a eleição como os favoritos.

JAMIL CHADE , JOSÉ MARIA MAYRINK , ENVIADOS ESPECIAIS / VATICANO, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2013 | 02h04

Ontem, como uma espécie de último dia de campanha, cardeais saíram às ruas, receberam um banho de povo, deram entrevistas e mandaram suas últimas mensagens antes de iniciar um período de silêncio total e isolamento. Nos bastidores, reuniões se proliferaram em busca de apoios concretos a cada candidato.

Espalhados por Roma, cada cardeal realizou uma missa e cada uma delas serviu como um termômetro de popularidade dos príncipes do Vaticano. Mas foram as celebrações do brasileiro e do italiano que estiveram entre as mais concorridas, levando às igrejas batalhões de jornalistas e até políticos.

Se Scherer se concentrou na mensagem religiosa e evitou a palavra "conclave", Scola transformou o altar em palanque. Enquanto o brasileiro adotou um tom de esperança para o futuro da Igreja e saiu do local em um carro com vidros fumê, o italiano posou para fotógrafos, falou da "aflição" que permeia a Igreja e deu sinais de que vai estender a mão a todos os grupos na Cúria, numa esperança de obter votos.

Entre os outros cardeais, as missas foram marcadas por tons e mensagens diferentes, ainda que o tema da homilia - a parábola do filho pródigo - tenha sido sempre o mesmo para todos.

Apesar do cala-boca que receberam há poucos dias do Vaticano por estarem revelando detalhes das reuniões pré-conclave, cardeais americanos usaram as missas para indicar os desafios da Igreja com o novo papa.

O cardeal de Boston, Sean Patrick O'Malley, disse que os problemas estão relacionados ao secularismo cada vez mais acentuado: "As pessoas deixam o Pai, a Igreja, por muitas razões: ignorância, uma recepção pobre, experiências negativas, escândalos, mediocridade espiritual".

Apesar de ser citado como possível sucessor de Bento XVI, o americano minimizou suas chances diante de dezenas de câmeras. Gerando risos, disse que levaria da igreja onde rezou a missa uma estátua de Santa Tereza, feita por Bernini, numa indicação que não apostava em sua eleição. "Após o conclave, estarei de volta aqui e talvez ainda tente levar a estátua para Boston."

Assim como os demais cardeais ontem por Roma, ele pediu orações para que o "Espírito Santo iluminasse a Igreja para que se possa escolher um novo papa".

Outro que optou por atenuar suas chances foi o cardeal de Nova York, Timothy Dolan, um nome que romperia com os lordes feudais da Cúria. Ontem, ele preferiu apenas falar de sua volta aos EUA. "Esperamos que o conclave seja curto", disse. Mas não perdeu o bom humor. Diante do número de pessoas na Igreja, brincou: "Acho que hoje vou fazer duas coletas (de doações)". Em sua missa, fiéis levaram para a igreja doces e alimentos. "Talvez eu leve um saco de doces ao conclave. Ouvi falar que a comida é mais ou menos."

O canadense Marc Ouellet, também apontado como um dos nomes mais fortes à sucessão, pediu que o público orasse "para que o Espírito Santo indique aos cardeais qual deles Deus escolheu" para ser o papa.

Também apontado como um nome de peso, o cardeal húngaro Peter Erdö deu seu recado. "Agora é o momento oportuno. Agora temos de levantar, erguer nossas cabeças e, se não encontrarmos o caminho que conduz à casa, então temos de perguntar à antiga estrada qual o caminho que leva da prisão para a casa verdadeira", disse ele.

O cardeal filipino Luis Antonio Tagle lotou sua igreja de fiéis, muitos deles trabalhadores domésticos das Filipinas que vivem de forma irregular em Roma. Já na periferia da Cidade Eterna, era o cardeal de Gana, Peter Turkson, quem também pedia que orações fossem feitas para um momento decisivo da Igreja. Para o cardeal nigeriano John Olorunfemi, Deus "já escolheu o próximo papa". "Resta a nós cardeais descobri-lo", disse.

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