Assembléia da Bolívia aprova Constituição em meio a protestos

Oposição boicotou sessão; texto ainda será votado em detalhe e em referendo.

Mery Vaca, BBC

25 de novembro de 2007 | 07h50

A Assembléia Constituinte da Bolívia aprovou neste sábado, em primeira instância, uma nova Constituição para o país, em meio a protestos violentos na cidade de Sucre que deixaram como saldo ao menos uma pessoa morta e mais de cem feridos.Quando os manifestantes estavam a ponto de cercar o local onde os constituintes estavam reunidos, os representantes da base do governo de Evo Morales se apressaram para votar, sem nem mesmo haverem terminado de ler todo o texto.As mobilizações começaram na sexta-feira, em rechaço à decisão da base do governo de instalar a Assembléia Constituinte em um colégio militar e aprovar a nova Carta Magna sem a presença da oposição.Neste sábado, milhares de cidadãos que exigem o traslado da sede do governo para Sucre saíram às ruas e se dirigiram ao local da sessão constituinte, cercada de policiais, militares e de camponeses que haviam chegado de várias partes do país para apoiar o governo e a Assembléia.Para conter os manifestantes e evitar um confronto entre os grupos rivais, os policiais e militares tiveram que lançar bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.Durante os choques, um advogado de 29 anos morreu, atingido por um tiro. O ministro de Gooverno, Alfredo Rada, afirmou que os policiais e os militares não usavam munição letal e que só portavam equipamento anti-distúrbios.Do lado de dentro do colégio militar, os representantes do governo analisavam a demanda pela transferência a Sucre do Executivo e do Legislativo, que hoje funcionam em La Paz.A Assembléia não aprovou o traslado desses poderes, mas estabeleceu a transferência à cidade da Corte Nacional Eleitoral, com o nome de "quarto poder do Estado". Outro poder, o Judiciário, já funciona hoje em Sucre.Dos 255 representantes eleitos para a Assembléia Constituinte, apenas 138 estavam presentes, todos aliados ao governo. Desses, 136 votaram pela aprovação geral do texto.Até o dia 14 de dezembro, quando vence o prazo da Assembléia Constituinte, ela ainda deve analisar os artigos da nova Carta em detalhe antes de submeter o texto a um referendo popular.O texto aprovado no sábado estabelece um Estado plurinacional (com respeito às diferentes etnias e culturas), a possibilidade de reeleição do presidente da República, a autonomia das populações indígenas e um Estado comunitário.A oposição rechaçou a forma como o partido de Evo Morales aprovou a Constituição e recomendou uma desobediência civil ao novo texto.O líder da oposição e ex-presidente Jorge Quiroga disse que "é uma verdadeira vergonha" o que ocorreu em Sucre e pediu a intervenção de organizações internacionais no país.Outros grupos de oposição, como os comitês cívicos de Santa Cruz e Chuquisaca (Sucre), enviaram cartas à ONU, à Organização dos Estados Americanos e a outras organizações pedindo ajuda por conta da violência ocorrida em Sucre e porque, segundo argumentam, não foram respeitados os princípios democráticos.O ministro da Presidência, Juan Ramón Quiintana, disse a uma rádio local que o presidente Evo Morales "está preocupado com a violência descomunal" que ocorreu em Sucre.O próprio Morales anunciou que os bolivianos terão uma nova Constituição como "presente de Natal".BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.