Assepsia vocabular

Solange, a prima que adora falar difícil, vai ficar muito contrariada se você disser que ela é uma chata. Talvez o seja mesmo, admite, sempre impecável na colocação dos pronomes – mas está acima de suas forças tolerar que para qualificá-la se lance mão, ainda que no feminino, de substantivo tão vulgar, assimilando-a ao inseto anopluro da família dos ftiriídeos que tem por habitat preferencial o púbis humano; sim, ele mesmo, o infernal carrapatinho também conhecido como carango, ladro, piolho-das-virilhas, piolho-do-púbis ou piolho ladro e, entre os cientistas, como Pthirus pubis. A Solange, portanto, em sua solanjal chatice, prefere que a chamem de maçante ou maçadora, como se usava dizer no tempo de seus pais. Quando também se dizia, aliás, que fulano ou fulana era "pau", mas este a prima não quer que se lhe apliquem.

Humberto Werneck,

06 Maio 2012 | 07h39

Na casa onde a Solange se criou, já faz tempo, a palavra "chato" fazia companhia aos mais nefandos palavrões na lista daquilo que não se podia dizer. E quem zelava pela assepsia vocabular, censor implacável, era o tio Alcides. Mesmo a Solange reconhece que o pai, serventuário da Justiça, extrapolava na macaqueação da fauna e do jargão forense, que tanto admirava, e até ia além, cravejando sua fala ribombante com profusão de pronomes descabidos. Eu estava lá, frangote, no dia em que um dos primos lhe pediu um par de velhas abotoaduras, pedido que o tio Alcides, na cabeceira da mesa, indeferiu nestes termos:

– Não lhas dou porque já não lhas tenho, e mesmo que ainda lhas tivesse, não lhas daria!

Ousasse alguém, na sua presença, dizer "esculhambar", palavra que aos ouvidos do pai da Solange remetia a recônditos berloques da anatomia masculina. Fazer cocô era fazer "an-an", palavrinha que por certo denotava o esforço eventualmente despendido nos respectivos trâmites fisiológicos. Já o avô Manuel, natural dos Açores, ao se encaminhar para o banheiro (nunca sem um exemplar da revista Grande Hotel), costumava anunciar, sem que lhe houvessem perguntado, que estava indo "dar de corpo", como se diz em sua terra natal. Em certas regiões do Sul do Brasil, aprendemos depois, a mesma operação se chama – do ponto de vista das calças, imagino – "ir aos pés".

Na casa da Solange, pum era "traque", sendo o mesmo emitido via "funfum". Não para dona Rita, a avó, também ela açoriana, que dava a esse absconso acidente geográfico corporal o nome de "ás de copas" – "m’nino", ralhava, "vá lavaire esse ás de copas!" Seu Manuel preferia "fiote". Estávamos longe do dia em que uma neta dele, não por acaso versada em literatura do Nordeste, dirá ao filho, apartando-lhe as nádegas: "Já lavou o zé-lins?"

Ao conjunto de que zé-lins faz parte dava-se o nome de "popô", embora o tio Alcides tentasse, sem êxito, impor "lalá", palavra em que também, especulo, cada sílaba designaria um gomo. Um dos irmãos mais novos da Solange não foi bem recebido quando apareceu com "buzanfã", de nada lhe adiantando informar que a palavra está no dicionário e que sua possível raiz etimológica mergulha no francês – idioma que o tio Alcides tanto admirava –, podendo ser um abrasileiramento de "beaux enfants", enteados. O que tem a ver o angu com a salsa? Sei lá, está no Houaiss.

Os peitos, na casa da Solange, onde havia tantos, eram cândidos e virginais "mamás", no que poderia ser visto como empenho para minimizar usos eróticos e realçar a acepção nutricional. A genitália feminina, por alguma razão, chamava-se "quiquita", provável corruptela do nome da ruidosa ave da família dos psitacídeos que o tio Alcides criava às dúzias num viveiro.

Quanto ao aparato masculino, bem, a Solange, por mais que futuque a memória, não consegue se lembrar que nome tinha ele, ou mesmo se tinha algum, e não porque não existisse, com fartura, naquela casa regurgitante de meninos. Uns primos, saidinhos, falavam em "binga", mas ela não sabe bem por quê, embora essa fosse a denominação de um isqueiro cuja forma sugeria aquela coisa inominada, capaz, também ela, de atear incêndios, ainda que de diversa natureza.

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