Assis ganha turismo de alta temporada

Primeiro papa Francisco da história faz prefeitura e comércio 'adiantarem' o verão

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL/ ASSIS, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h02

No alto do morro onde fica a cidade medieval de Assis, o insistente inverno europeu não dá trégua. Mas nem o vento nem o frio parecem hoje ser um obstáculo. A decisão de Jorge Bergoglio de usar o nome de papa Francisco garantiu à pequena cidade, local de nascimento de São Francisco, um verdadeiro estímulo espiritual e comercial diante do que é uma nova onda de peregrinos.

A prefeitura já começa a preparar um novo plano de turismo, diante da constatação da avalanche de turistas e peregrinos que toma a cidade. Ontem, no primeiro sábado depois do anúncio do novo papa, o Estado visitou Assis e testemunhou as ruas lotadas e restaurantes com filas de espera - o mesmo ocorria nos locais sagrados.

Tanto turistas estrangeiros que estavam em Roma quanto religiosos de toda a Itália aproveitaram o fim de semana para conhecer o berço de São Francisco e rezar pelo novo papa. Basta uma caminhada pela cidade para perceber que Assis vive uma ebulição interna e externa.

A história da cidade, na região da Umbria, confunde-se com a história do cristianismo na Itália. No ano de 238, Assis converteu-se ao cristianismo. Os ostrogodos a destruiriam em 545. Só 600 anos depois é que conseguiria se reerguer e se tornar independente. Mas foi justamente esse processo que levou Francesco di Bernardone - mais tarde São Francisco - a ser preso e desencadear sua missão.

Patrimônio Mundial da Cultura, a cidade é conhecida por sua basílica, que mantém as relíquias de São Francisco, além de igrejas com afrescos de Giotto. "As pessoas aqui não acreditavam quando, pela televisão, vimos que o nome do novo papa seria Francisco", disse a irmã Therese Myriam, que se ocupa dos serviços do templo. Para ela, a chegada de um papa Francisco vai "revolucionar" a Igreja. "Estamos falando de uma Igreja de base, não a de Roma, com sua pompa. O papa Francisco nos forçou a um exame de consciência, do topo da Igreja aos fiéis."

"De um dia para o outro, nos tornamos a cidade do papa. Espero que isso não tenha um efeito apenas comercial, mas seja também uma chance de reconversão para todos", disse Domenico Sorrentino, o padre local. Um site criado para permitir que pessoas de todo o mundo possam colocar no túmulo de São Francisco pedidos de orações foi alvo de uma saturação sem precedentes de mensagens.

Mas a euforia não é apenas espiritual. Comerciantes, donos de restaurantes e mesmo os políticos locais têm na ponta da língua uma frase que já virou unanimidade: o papa Francisco garantiu um golpe de publicidade global para o vilarejo de 3 mil habitantes que nenhuma campanha jamais conseguiria. Assis já é um dos lugares mais visitados da Itália, com cerca de 4 milhões de turistas por ano e, por séculos, tem sido local de peregrinação. Mas grande parte deles se concentra nos meses de primavera e de verão. Nos últimos anos, a cidade ainda viu uma queda nos gastos de cada turista, com a crise na Europa.

Em alta. Agora, as autoridades já preveem um aumento importante nesse número de turistas. Não por acaso, imagens com a foto do novo papa são vendidas por todas as partes e a prefeitura admite que terá de replanejar o calendário de eventos da cidade para atender a turistas em todas as épocas do ano, além de tirar da gaveta projetos de construção de novos hotéis, reformas de residências, abertura de lojas e até mesmo um grande estacionamento para receber os ônibus de peregrinos.

"Nunca vi esse movimento no mês de março", declarou Marina, a gerente de um restaurante local, que há 36 anos trabalha na cidade, sobre o movimento ontem. "O fluxo de pessoas hoje é o mesmo que temos em julho, em alta estação", disse. "Esse não é o período de turismo. Mas estamos nos dando conta que a decisão do papa de se chamar Francisco vai transformar todo o ano em um período de peregrinação", indicou.

Rogério Silva, de Curitiba, conta que estava em Roma como turista quando o papa foi eleito. "Decidi ver o que era essa cidade e valeu a pena. Não estava nos planos", admitiu.

Maria Crissi, dona de um albergue, contou que decidiu reabrir seu hotel nesse período de inverno depois de ver a chegada de turistas e de fiéis. "Normalmente abrimos a partir de abril, simplesmente porque antes não há gente suficiente. Mas quando vimos o fluxo de pessoas chegando já no dia seguinte à nomeação do papa entendemos que a alta temporada havia começado", afirmou. "Não podemos desperdiçar essa oportunidade. Não é sempre que há um papa Francisco", disse, bem-humorada.

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