Astrônomos detectam misterioso pulso de rádio no espaço

Sinal pode ser o primeiro indício da evaporação de um buraco negro, prevista em teoria nos anos 70

Carlos Orsi, estadao.com.br

27 de setembro de 2007 | 15h36

Em cinco milésimos de segundo, um fenômeno ainda inexplicado liberou um sinal de rádio com energia maior que a produzida pelo Sol em um mês. Entre as possíveis causas do efeito está a evaporação de um buraco negro - algo previsto em teoria desde os anos 70, mas jamais visto na prática. Detectada em 2001 por um radiotelescópio baseado na Austrália, a misteriosa explosão é descrita nesta semana no serviço online Science Express, da revista Science.   "As idéias correntes para explicar o pulso são estrelas de nêutron se fundindo, supernovas distantes ou buracos negros em evaporação", diz o principal autor do artigo que descreve a descoberta, o astrofísico americano Duncan Lorimer. "Ainda não sabemos qual desses, nem se é um desses. Só mais observações poderão desvendar o mistério". O que se supõe, por enquanto, é que a fonte da emissão deve estar a menos de 1 gigaparsec da Terra - ou 30 bilhões de trilhões de quilômetros - e ter um diâmetro menor que 1.500 km.   Resultado da aplicação da mecânica quântica aos buracos negros, a evaporação desses objetos supermaciços - dos quais, em princípio, nada poderia escapar - foi postulada por Stephen Hawking em 1975. Esta não é, no entanto, a mais surpreendente das possíveis explicações para o sinal.   "Certamente o pessoal da SETI (Busca por Inteligência Extraterrestre) anda procurando por sinais de um tipo parecido", diz Lorimer. "Eles esperam um sinal de banda estreita dos extraterrestres, mas estão de olho em coisas como esta. Conversando com o pessoal da SETI, soube que eles estão bem interessados em procurar por mais (sinais como este) em seus dados".   Uma das principais estratégias da SETI é a busca por "faróis", fontes de rádio artificiais de alta intensidade. No entanto, o sinal de Lorimer falha em um critério importante da busca por inteligência no espaço: não se repetiu, mesmo após 90 horas de observações adicionais, sendo 50 ainda em 2001 e ouras 40, no início de 2007.   Se a ausência de novos sinais da mesma intensidade é desanimadora para a SETI, a falta de emissões de menor potência permite que os cientistas descartem a explicação mais óbvia para o fenômeno: estrelas de nêutrons que emitem pulsos regulares de rádio, os chamados pulsares.   "Pulsos gigantes de pulsares costumam ter uma 'cauda' de emissões de menor intensidade, o que não foi observado", explica Lorimer.   A expectativa dos descobridores do pulso misterioso é encontrar fenômenos parecidos em outros pontos do espaço. "Achamos esta emissão olhando para uma fração relativamente pequena do espaço, e estimamos que algumas centenas de eventos similares possam estar ocorrendo a cada dia", diz o cientista. "Muitos instrumentos atualmente em construção serão ótimas sondas para isso".   Se mais dessas explosões forem encontradas, diz o artigo na Science Express, astrônomos terão um modo de estudar as características do meio interestelar - o "espaço vazio" entre a Via-Láctea e galáxias distantes.   "Se pudermos associar esses fenômenos a fontes em galáxias que estão a uma distância conhecida, poderemos calcular o número total de elétrons entre nós e a explosão", diz Lorimer. Isso é possível porque os elétrons provocam uma dispersão nas ondas de rádio, que pode ser medida. "Seria uma sonda fantástica para o meio intergaláctico".

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