Ataque a crematório causa polêmica entre israelenses

Laicos divergem da opinião dos ultra-ortodoxos, para quem cremação é ''sacrilégio''.

Guila Flint, BBC

24 de agosto de 2007 | 10h15

O incêndio do único crematório existente em Israel, na última terça-feira, dividiu a comunidade israelense, causando indignação entre os laicos e regozijo entre ultra-ortodoxos.De acordo com a polícia, o portão do crematório Alei Shalechet foi arrombado e o local foi incendiado propositalmente.O incêndio ocorreu no mesmo dia em que o jornal ultra-ortodoxo Kav Itonut Datit publicou a localização exata do crematório, que até então tinha sido mantida em sigilo, justamente por temores de um ataque religioso.Segundo as suspeitas da policia israelense, o crematório Alei Shalechet foi destruído por ativistas ultra-ortodoxos que se opõem à prática da cremação e a consideram um "sacrilégio". O incidente despertou uma intensa discussão em Israel, a respeito dos direitos do indivíduo de determinar o que será feito com seu corpo após a morte.Um dos líderes ultra-ortodoxos, Yehuda Meshi Zahav, que divulgou a localização do crematório na imprensa religiosa, disse que o local destinado à cremação "era uma profanação aos mortos e à terra sagrada de Israel".Segundo as tadições e crenças dos ultra-ortodoxos em Israel, os falecidos devem ser sepultados na terra, envoltos apenas em um pano branco, sem caixão.O diretor do crematório, Alon Nativ, afirmou que vinha recebendo ameaças por parte de ultra-ortodoxos desde a fundação do local, há dois anos, e que já deu várias queixas à policia."Pretendo reconstruir o crematório, existem muitos israelenses que querem ser incinerados e eles (os ultra-ortodoxos) não poderão impor sua visão de mundo ao público israelense".O ministro das Religiões, Itzhak Cohen, do partido ultra-ortodoxo Shas, declarou que vai preparar um projeto de lei que proíba a cremação em Israel. "Israel é um estado judeu e deve se comportar de acordo com as normas do judaísmo. Crematórios existiam em Auschwitz e não podem existir aqui. Os fundadores do crematório se inspiraram no Holocausto, lá queimavam judeus", disse o ministro.Cohen também deu uma sugestão aos cidadãos de Israel que querem ser cremados. "Podem ir para a Índia", disse ele.O presidente do Museu do Holocausto, Yad Vashem, Tomy Lapid, se indignou com as alusões do ministro ao genocídio cometido pelo regime nazista."Esta é uma forma de terrorismo religioso", disse Lapid. "As pessoas têm o direito de decidir como querem viver e como querem morrer... os ultra-ortodoxos querem controlar não só a nossa vida, mas até a nossa morte".O conhecido escritor Yoram Kaniuk disse à rádio pública de Israel que quer "sair deste mundo em forma de cinzas e não ser sepultado na terra"."Não quero túmulo nem lápide, e esses idiotas não vão determinar para mim como vou morrer".O ex-ministro da Justiça e líder do partido social-democrata Meretz, Yossi Beilin, disse que já determinou, em seu testamento, que seu corpo seja cremado. "A liderança ultra-ortodoxa quer levar Israel ao obscurantismo, no qual o cidadão não poderá nem decidir o que será feito com seu corpo após a morte. Os partidos laicos vão lutar contra o projeto de lei para proibir a existência de crematórios".BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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