Atendimento em pronto-socorro é criticado por 72% dos usuários de planos

Um estudo divulgado ontem pela Associação Paulista de Medicina (APM) aponta que 72% dos usuários de planos de saúde no Estado de São Paulo que precisaram usar pronto-socorro enfrentaram problemas como superlotação e longas esperas nos hospitais. Desses, 15% admitiram que buscaram depois atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS).

BRUNO DEIRO, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2012 | 03h07

A pesquisa, do Datafolha, entrevistou 804 paulistas que usaram seus planos de saúde nos últimos 24 meses - e 77% relataram alguma dificuldade no atendimento. Em média, cada um teve quatro problemas distintos. "Essa alta porcentagem de problemas é inaceitável para um sistema em que o atendimento é pago", afirma Florisval Meinão, presidente da APM.

Segundo ele, entre as principais causas para a deficiência no atendimento estão a sobreposição de planos (muitos convênios em poucos hospitais) e a grande rotatividade de médicos por causa da baixa remuneração. "Os planos de saúde acabam por impor as mesmas dificuldades que o SUS no acesso à saúde", afirma Meinão. "Algumas consultas levam até três meses para serem marcadas e muitos exames rotineiros não são cobertos pelos planos."

O resultado da pesquisa serviu como munição para as entidades médicas criticarem a atuação da Agência Nacional de Saúde Complementar (ANS), responsável pela fiscalização das operadoras dos planos. "A ANS não tem dados precisos sobre a prestação de serviço e a quantidade de hospitais, médicos e especialidades que participam da rede", acusa Aloísio Tibiriçá, do Conselho Federal de Medicina.

A ANS afirma que tomou conhecimento da pesquisa, mas diz que vai avaliar o estudo antes de se pronunciar oficialmente.

A Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), que representa as operadoras, afirma ter estranhado os resultados apresentados. "Em mais de uma pesquisa realizada recentemente com usuários de planos de saúde os resultados gerais são sempre favoráveis aos planos", declarou, por meio de nota.

A Abramge lembra que a própria pesquisa da APM revela que 69% dos entrevistados se declararam satisfeitos com o seu atual plano e cita um estudo mais amplo realizado em todo o País pelo Instituto de Estudos da Saúde Suplementar no ano passado que mostrou que 80% dos entrevistados estão satisfeitos ou muito satisfeitos com seus planos.

O estudo revelou também que 15 % dos entrevistados já tiveram de recorrer ao SUS por falta de atendimento em seus planos. "De forma indireta, o governo está subsidiando os planos, pois este custo de atendimento fora do plano não é repassado ao SUS", afirma Meinão.

A APM usa o levantamento para tentar buscar apoio por melhor remuneração dos médicos. Atualmente, segundo a entidade, os profissionais paulistas recebem entre R$ 50 e R$ 60 por consulta. "Alguns chegam a ganhar apenas R$ 25", afirma o presidente da entidade de classe.

No próximo dia 6, a APM promete fazer uma nova paralisação no atendimento dos planos como forma de protesto. Além de melhores condições de trabalho, exige que os médicos recebam das operadoras R$ 80 por consulta realizada.

Insatisfação. Grávida de 7 meses, a auxiliar de atendimento Fabiana Aparecida dos Santos, de 27 anos, está entre os usuários de plano que tiveram dificuldades na hora de buscar atendimento. Após deixar a empresa em que trabalhava, em abril, ela fez acordo com a operadora para manter o plano sem período de carência. Moradora de Itaquera, Fabiana enfrentou problemas a partir daí. Com poucas opções de laboratórios credenciados, só encontrou disponibilidade para exames na Avenida Paulista. Para piorar, houve problema no sistema da operadora e ela foi recusada em vários hospitais porque sua situação consta como em período de carência até 2013.

"Vou seguir no plano até ter minha filha, depois vou sair. A maioria dos endereços indicados para consulta ou não existe mais ou se desvinculou", conta. "Para mim, foi propaganda enganosa quando me ofereceram assistência completa na gravidez. Mas, pelo que vejo de outras pessoas, a maioria dos planos não cumpre o que promete."

O estudo diz que 42% dos usuários paulistas consideram que os planos de saúde cumprem todas as regras do contrato.

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