Atentados matam 40 e ferem mais de 100 em dia de eleição no Iraque

Em alguns locais, explosões alcançam média de quatro por minuto; onda de violência não intimidou eleitores

Lourival Sant'Anna, Juca Varella, O Estadao de S.Paulo

08 de março de 2010 | 00h00

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RESISTÊNCIA - Em meio a ataques, eleitor vota em posto de Bagdá

ENVIADOS ESPECIAIS

BAGDÁ

Uma onda impressionante de ataques com morteiros, foguetes, granadas de mão e bombas em Bagdá e noutras partes do Iraque matou ontem pelo menos 40 pessoas e feriu mais de 100, mas não impediu que muitos iraquianos saíssem para votar na segunda eleição para o Parlamento - que escolherá o primeiro-ministro e o presidente - desde a invasão de 2003.

Não foram divulgados resultados nem dados nacionais de comparecimento. Mas, segundo os números apresentados pelas autoridades regionais, ele foi alto nas províncias que concentram a população sunita, que boicotou as eleições de 2005. Em Diyala, reduto da Al-Qaeda, o comparecimento foi de 90%; em Anbar, 64%; em Salahedin, 62%, e em Ninive, 65%.

Curiosamente, a participação foi menor nas províncias de maioria xiita: de 46% a 64%, informou a agência de notícias France Presse. Em Kirkuk, disputada entre árabes e curdos, 70% dos eleitores votaram. Em 2005, o comparecimento atingiu 79,6% na média nacional.

Os ataques começaram antes das 7 horas em Bagdá (1 hora em Brasília), quando as urnas abriram. Por volta de 8h30, as explosões alcançavam uma média de quatro por minuto, no raio de distância em que podiam ser ouvidas do Hotel Al-Mansour, no centro de Bagdá. Os morteiros e foguetes tinham como alvo a chamada Zona Verde, onde se concentram edifícios do governo, o comando militar americano e embaixadas importantes como a dos EUA.

Os atentados atingiram tanto bairros xiitas quanto sunitas. A sua autoria não ficou clara, como tem acontecido desde o recrudescimento dos atentados, em 2009. O "Estado Islâmico do Iraque", como a Al-Qaeda se autodenomina, anunciou na sexta-feira um "toque de recolher" para ontem. "Quem o desafiar (essa ordem) se exporá à fúria de Alá", diz um comunicado em seu site. O grupo sunita considera as eleições de ontem a consolidação do domínio do Iraque pela maioria xiita.

Mas muitos iraquianos acreditam que pelo menos parte desses ataques pode ter sido perpetrada por inimigos políticos do premiê Nuri al-Maliki, cujo trunfo nas eleições provinciais de janeiro do ano passado foi a redução da violência.

No maior atentado de ontem, uma bomba demoliu um edifício residencial de três andares no bairro de Ur, no leste de Bagdá, matando 25 pessoas. No mesmo bairro, atentado semelhante matou mais quatro pessoas. Houve um intervalo de meia hora entre as duas explosões. No bairro de Shurta, oeste da cidade, outra explosão também destruiu um edifício, matando 7 pessoas e ferindo 16.

Três eleitores foram mortos no bairro xiita de Hurriyah por uma granada lançada perto de uma seção eleitoral. Na zona oeste, pelo menos uma pessoa morreu vítima de um morteiro.

INTIMIDAÇÃO

Os disparos e explosões em Bagdá, que tinham o claro objetivo de intimidar os eleitores, diminuíram por volta do meio-dia e quase desapareceram à tarde. Pela manhã, bloqueios de militares e policiais não permitiam a passagem de carros civis. As ruas ficaram semidesertas.

Os eleitores que se aventuraram a sair de casa tiveram de ir votar a pé. À tarde, a circulação de veículos foi liberada e o comparecimento às urnas se intensificou. Segundo a Alta Comissão Eleitoral Independente, os ataques só causaram o breve fechamento de duas seções eleitorais.

"Esses atos não minarão a vontade do povo iraquiano", disse Maliki, pela manhã. "Este dia significa para nós completar a construção da democracia, do processo político, tendo como alicerce nossos cidadãos."

"Hoje é um dia épico", celebrou o dirigente do grupo sectário xiita Conselho Supremo Islâmico Iraquiano, Amr al-Hakim, um dos principais rivais de Maliki, também xiita, nessas eleições. "É o chamado da consciência, da pátria e da marjaiya (liderança espiritual xiita)."

Seu antigo rival e atual parceiro na Aliança Nacional Iraquiana, o clérigo Moqtada al-Sadr, exortou: "Embora eleições sob a sombra da ocupação não sejam legítimas, peço ao povo que participe como ato de resistência política, para que o terreno seja preparado para os ocupantes deixarem o Iraque."

Do sucesso dessas eleições depende a retirada americana do Iraque, promessa de campanha do presidente Barack Obama. O plano prevê a redução de 100 mil para 50 mil soldados até agosto, e a total retirada até o fim do ano que vem.

Leia relato dos enviados especiais do ‘Estado’ ao Iraque no blog Radar Global

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