Atiradores matam general egípcio; Mursi desafia tribunal

Atiradores em uma moto mataram uma autoridade sênior do Ministério do Interior do Egito do lado de fora de casa no Cairo, nesta terça-feira, colocando pressão no governo apoiado pelos militares, que luta para conter uma insurgência islâmica.

MICHAEL GEORGY, Reuters

28 de janeiro de 2014 | 15h05

A morte do general Mohamed Saeed, chefe do escritório técnico do ministro do Interior, deu a entender que os militantes estão intensificando a campanha contra o Estado em um momento delicado da política egípcia.

Abdel Fattah al-Sisi, chefe do Exército e recém nomeado marechal de campo, que depôs o presidente islâmico Mohamed Mursi em julho, deve anunciar a candidatura à Presidência nos próximos dias, um gesto que revoltará a Irmandade Muçulmana, à qual Mursi pertence.

Ao derrubar Mursi após protestos em massa contra seu governo, Sisi revelou um roteiro político cuja intenção é levar a eleições livres e legais e à estabilidade. Ao invés disso, o Egito tem testemunhado o caos e uma militância islâmica cada vez mais inflamada.

A Irmandade acusa Sisi de dar um gole que minou as conquistas democráticas obtidas desde a revolta que depôs o autocrata Hosni Mubarak em 2011. Centenas de seus apoiadores foram mortos em conflitos com forças de segurança em todo o país em agosto.

Na violência que se seguiu à queda de Mursi, centenas de membros das forças de segurança também foram mortos.

Embora as autoridades tenham conseguido reduzir o tamanho das manifestações de rua, não há solução rápida para conter a violência militante, como sugere o local do assassinato de Saeed.

Uma bala estilhaçou a janela do carro em que ele estava em plena luz do dia -- um lembrete da insurgência islâmica que agiu durante vários anos na década de 1990, até Mubarak massacrá-la.

O assassinato de Saeed aconteceu horas antes de Mursi comparecer ao tribunal em uma academia de polícia no Cairo para encarar acusações de sequestro e assassinato de policiais na fuga de uma prisão durante a revolta.

Mursi, acusado ainda em três outros casos, foi impedido de gritar slogans contra Sisi e o governo apoiado pelos militares, como fez em sessões anteriores.

Desta vez, ele foi colocado em uma cela de vidro com um sistema de som controlado pelo tribunal, outro exemplo da repressão que atraiu a crítica de entidades de direitos humanos.

Em certo momento, Mursi disse ainda ser o presidente legítimo do Egito, e pediu que o Judiciário não se envolva em uma vingança política.

Gritando com o juiz, ele disse: "Quem é você? Sabe quem eu sou?". "Sou o chefe do Tribunal Penal do Egito", respondeu o juiz. Em outras ocasiões, Mursi andou pela cela.

Outros líderes da Irmandade, detidos em uma cela de vidro separada, acenaram para pessoas no recinto.

Uma lista de 132 réus publicada pela mídia estatal mostrou que alguns são palestinos ainda foragidos. Autoridades egípcias acusam o grupo militante palestino Hamas de ajudar líderes da Irmandade a fugirem da prisão.

Também afirmam que o Hamas providenciou fundos para grupos militantes egípcios sediados no Sinai que assumiram a autoria de ataques a bomba e tiroteios como o de terça-feira.

VELHOS INIMIGOS

O Estado egípcio e os militantes são velhos inimigos. Islamitas no Exército opostos ao tratado de paz do presidente Anwar al-Sadat com Israel o mataram a tiros em 1981.

O Egito é o berço de alguns dos militantes mais notórios do mundo, como o líder da Al Qaeda, Ayman al-Zawahri.

A violência política atingiu com força a economia do país, que tem importância estratégica por causa do tratado de paz com Israel e do controle do Canal de Suez.

Bilhões de dólares de Estados do Golfo Árabe que entraram em grande quantidade depois que Mursi foi deposto mantiveram a economia à tona mesmo diante dos protestos de rua, embora as receitas do turismo, grande fonte de moeda estrangeira, tenham caído para 41 por cento, ou 5,9 bilhões de dólares, em 2013.

Os bombardeios frequentes de islamitas, que recebem grande cobertura da imprensa, podem reduzir muito as chances de uma recuperação econômica.

O Banco Central do Egito torrou pelo menos 20 bilhões de dólares (cerca de 48 bilhões de reais) --cerca de metade de suas reservas-- apoiando a moeda local desde a revolução de 2011.

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