Ativistas protestam contra a construção de Angra 3 no Rio

Relatório do Greenpeace mostra inviabilidade financeira do projeto, que jogaria dinheiro público no lixo

Paulo R. Zulino, do estadao.com.br,

24 de março de 2008 | 14h44

Cerca de 20 ativistas do Greenpeace instalaram, na manhã desta segunda-feira, 24, privadas pintadas de amarelo e preto na entrada da sede da Eletrobrás, no Rio, para protestar contra a decisão do governo Lula de, segundo a entidade, desperdiçar bilhões de reais na construção da usina nuclear Angra 3.   Manifestantes representando funcionários da estatal depositaram moedas gigantes nos vasos sanitários para ilustrar o mau uso do dinheiro público em investimentos com energia nuclear. Uma faixa com os dizeres "Eletrobrás: economize já! Nuclear, não" pedia que a instituição pare de desperdiçar recursos da União com a usina.   A manifestação marcou a divulgação de um novo relatório do Greenpeace chamado "Elefante Branco: os verdadeiros custos da energia nuclear", que traz uma análise técnica da ginástica financeira utilizada pelo governo federal para apresentar Angra 3 como um projeto economicamente viável. Os manifestantes protocolaram na Eletrobrás uma carta explicando o motivo do protesto e exigindo que a empresa disponibilize ao público os dados oficiais do projeto de Angra 3.   O relatório do Greenpeace revela que a construção da usina custará, além dos R$ 7,2 bilhões oficialmente divulgados pelo governo, pelo menos mais R$ 2,3 bilhões por conta dos juros sobre o capital imobilizado para a obra. O detalhamento dos números mostrou que o governo, para obter a tarifa de R$ 138,20 por megawatt/hora (MWh) para a energia gerada por Angra 3, aplicou taxas de retorno para o investimento entre 8% e 10%, muito abaixo da prática de mercado (12% a 18%), transferindo o prejuízo para o Tesouro Nacional.   O Greenpeace ressalta que a taxa aplicada pelo governo é irreal até se for considerado um financiamento pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cuja taxa para projetos de energia jamais atinge um patamar inferior a 10%.   As baixas taxas de retorno assumidas para o projeto, conforme a entidade, podem acarretar perdas financeiras médias de até R$ 4 bilhões, valor dos subsídios não declarados de Angra 3. Caso o governo aplicasse uma taxa de retorno de 12%, a tarifa da usina chegaria aos R$ 152/MWh, valor acima dos índices considerados competitivos pelo próprio Ministério de Minas e Energia. Vale notar que o modelo de financiamento do empreendimento assumido pelo governo remunera apenas o capital de terceiros e não os recursos investidos pela União.   Para justificar a competitividade de Angra 3, a Eletrobrás compara a tarifa de energia nuclear de R$ 138,20 /MWh com a das térmicas fósseis - que operam em situações de emergência e que têm um valor próximo, cerca de R$ 130/MWh.   Tempo da obra   Ainda de acordo com o relatório do Greenpeace, o governo deixou de contabilizar os possíveis atrasos na construção da usina. Como a obra está parada há mais de 20 anos, o prazo oficial de seis anos apresentado para sua finalização é duvidoso, pois não se sabe o real estado de conservação dos equipamentos já adquiridos, que podem ter sido danificados. O estudo ressalta que, quanto mais longo o período de construção, mais elevado é o custo do empreendimento e da energia.   Angra 2, por exemplo, levou 17 anos para entrar em operação e custou o equivalente a US$ 12 bilhões, cerca de cinco vezes mais que o orçamento previsto. A média internacional de atrasos em construção de usinas nucleares é de quatro anos. Se Angra 3 seguir a tradição e levar 10 anos para ser concluída, o custo da usina ficará 66% maior, elevando os gastos a mais de R$ 15 bilhões, ou o dobro do valor promovido pela Eletrobrás.   A partir desta terça-feira, 25, o Greenpeace participará das audiências públicas sobre o licenciamento ambiental da usina nuclear Angra 3.   Em 2007, a Eletronuclear realizou três audiências públicas sobre o licenciamento da usina, entre os dias 19 e 21 de junho. Porém, as audiências foram suspensas por determinação da Justiça Federal de Angra dos Reis, que aceitou denúncias de ilegalidades apontadas pelo Ministério Público Federal.   Entre as principais irregularidades, foi constatada a falta de convocação para a audiência com antecedência mínima de 45 dias após a publicação do edital no Diário Oficial da União e a indisponibilidade dos estudos de impacto ambiental do projeto em locais obrigatórios para consulta da população.

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