Atriz que é atriz tem de viver uma mulher real

Essa premissa contra a ficção está cada vez mais em vigor em Hollywood

Manohla Dargis, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2009 | 00h00

Para as atrizes de hoje se sentirem realizadas e bem sucedidas, já não é suficiente serem jovens e belas na tela: elas precisam encarnar alguma personagem histórica imortal. Há muito que cineastas ressuscitam essas mulheres notáveis, em parte porque os membros da Academia de Hollywood gostam de premiar esse tipo de cinebiografia. No ano passado, Marion Cotillard gorjeou seu caminho ao pódio da premiação por seu papel como a cantora Edith Piaf. De 2000 para cá, seis dos prêmios de melhor atriz foram para interpretações biográficas, a maioria de mulheres mortas. Neste ano, Julia Child, Coco Chanel, a rainha Vitória, o grande amor de Keats, Fanny Brawne, e agora Amelia Earhart estão no páreo.

Não se pode culpar diretores (ou atrizes) por assaltarem a História. É muito difícil fazer render a bilheteria com uma história original de mulherzinha. Blockbusters costumam ser arrasadoramente masculinos. Sandra Bullock ainda atrai públicos com bagatelas orçamentárias como A Proposta, mas o maior romance do ano nos Estados Unidos foi protagonizado por um trio cômico masculino, em Se Beber, Não Case. No ano passado, somente um filme sobre uma mulher - Crepúsculo, o romance vampiresco sobre uma adolescente viva e seu namorado zumbi superbonito - arrancou um lugar entre os 10 mais, num ranking dominado por super-heróis musculosos e personagens de desenho animado masculinos.

Mas filmes românticos como Crepúsculo e Lua Nova, da mesma série de vampiros lights, não atraem em geral o gosto dos críticos, a consideração de outros artistas do mundo do cinema nem tampouco as estatuetas pelas quais atores e executivos tanto anseiam. Foi por tudo isso que a esfuziante Charlize Theron, por exemplo, que começou a carreira exibindo muita perna e fazendo escada para os galãs brilharem, ganhou uns quilinhos, em Monster - Desejo Assassino, para fazer Aileen Wuornos, uma assassina serial da Flórida. Aileen foi executada em 2002 pelo assassinato de sete homens. O filme chegou aos cinemas no ano passado, e Theron ganhou o Oscar de melhor atriz no dia que seria o 48º aniversário da condenada. Foi também por isso que Nicole Kidman usou um nariz falso para fazer Virginia Woolf em As Horas, e Cate Blanchett usou maquilagem de palhaço para interpretar a Rainha Virgem.

Hilary Swank não usa nenhuma prótese para fazer Amelia Earhart no novo filme sobre a aviadora: ela tem um homem em seu braço em vez disso. O filme Amelia vai na mesma linha daqueles filmes que contam a história de uma grande mulher da vida real, rodeada pelos machos que escolheu. Em biografias masculinas, as mulheres tendem a sofrer em silêncio ou a se lamentar e gritar nos bastidores. O principal sofrimento aqui, ao contrário, cabe ao marido de Earhart, o publisher G. P.Putnam (Richard Gere). Suas lágrimas ajudam a domesticar a aviadora, que nunca teve permissão para voar solo, ao menos metaforicamente. A Earhart real encorajava mulheres jovens a seguirem carreiras: "Se começarmos a pensar e reagir como seres humanos capazes de lidar com os desafios da vida, então seguramente teremos algo mais com o que contribuir no casamento, além de nossos corpos."

Mulher de Presidente

Outra mulher bem real nas telas de hoje é Hillary Clinton, interpretada por Hope Davis, atriz que foi escalada para um papel de coadjuvante em The Special Relationship, porque, na verdade, não é um filme sobre Hillary, mas uma ficção sobre o relacionamento político de Bill Clinton e Tony Blair. As histórias femininas se tornaram tão marginalizadas nas telas de cinema americanas que deveríamos ficar gratos pelo fato de os cineastas estarem atacando os livros de História. Além do filme recente sobre Chanel, há o projeto de que finalmente veremos a Janis Joplin real (até agora houve personagens inspiradas na cantora, como Bette Midler, em A Rosa). A TV a cabo, para a qual atrizes de cinema mais velhas às vezes se encaminham quando o trabalho na telona começa a secar, nos trouxe recentemente um filme sobre a pintora Georgia O"Keefe.

Uma mulher precisa ter sido legitimada pela história, dirigido um país, inspirado um poeta, ou instigado uma revolução na moda ou na culinária para ter uma chance nas telas em algum projeto sério. Também ajuda se ela for interpretada por Meryl Streep.

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