Atuação na ditadura divide argentinos

Acusação de que Bergoglio seria culpado por prisão de padres jesuítas é contestada

MARINA GUIMARÃES , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2013 | 02h02

As versões de que o papa Francisco teve vínculos com a ditadura argentina (1976-1980) provocam polêmica no país latino-americano. O Nobel da Paz argentino Adolfo Pérez Esquivel emitiu ontem uma nota na qual isentou Jorge Bergoglio de cumplicidade com o regime militar, mas também o criticou por sua atuação durante os anos de chumbo.

"Não considero que Bergoglio tenha sido cúmplice da ditadura, mas acredito que lhe faltou coragem para acompanhar nossa luta pelos direitos humanos." No texto, Pérez Esquivel recordou que, durante o regime militar, os membros da Igreja não tiveram atitudes homogêneas. "Foram poucos os pastores que, com coragem e decisão, assumiram nossa luta pelos direitos humanos."

Anteriormente, em uma entrevista à BBC, Pérez Esquivel afirmou que "Bergoglio não teve nada a ver com a ditadura".

A ex-senadora Graciela Fernández Meijide, mãe de um desaparecido político, também defendeu o papa. "De todas as testemunhas que ouvi, jamais recebi depoimentos de que Bergoglio estivesse relacionado com a ditadura", disse Graciela em entrevista à emissora TN. "Sempre soubemos que ele ajudou muitos a escapar das garras dos repressores."

Graciela integrou a Comissão Nacional sobre Desaparecimentos de Pessoas (Conadep), que ajudou o primeiro presidente eleito após a ditadura, Raúl Alfonsín, a investigar os crimes cometidos no período militar. O nome de Bergoglio foi relacionado à ditadura após um depoimento de uma catequista chamada María Elena Funes, que esteve detida na Escola Mecânica da Marinha (Esma), o principal centro de detenção e tortura da ditadura argentina.

Denúncia. O caso foi revelado no livro Silêncio, do jornalista Horacio Verbisky, que apontou Bergoglio como culpado pela detenção e desaparecimento de dois jesuítas. Em artigo publicado ontem no jornal Página 12, Verbisky reafirmou as acusações e qualificou Bergoglio como "um populista conservador".

As acusações surgiram em 2005, paralelamente às duras críticas do então arcebispo contra o governo de Néstor Kirchner, especialmente pelo elevado nível de pobreza.

Em 2010, Bergoglio prestou depoimento ao Tribunal Oral, que investiga os casos de crimes de Estado, sobre sua suposta cumplicidade no sequestro dos jesuítas. Na ocasião, ele relatou como teria ajudado a liberar os sacerdotes detidos. Apesar de nunca ter dado entrevistas sobre o assunto, relatou detalhes do caso em sua biografia El Jesuita, escrita pelos jornalistas Sergio Rubin e Francesca Ambrogetti.

De acordo com as denúncias, quando dirigia a Companhia de Jesus, Bergoglio teria pedido aos padres Orlando Yorio e Francisco Jalics que abandonassem seu trabalho pastoral em comunidades pobres. Seus acusadores dizem que, diante da negativa dos sacerdotes, Bergoglio teria comunicado aos militares que eles não contavam com o amparo da Igreja, deixando-os à mercê dos repressores.

Já em seu livro, o papa relata que fez o que podia para evitar a situação, chegando a se reunir com o general Jorge Videla e com o almirante Emilio Eduardo Massera para tentar liberar os dois padres. Bergoglio relata que Yorio e Jalics estavam fundando uma nova congregação religiosa e seu superior da ordem jesuíta disse que eles tinham de escolher entre a comunidade e a Companhia de Jesus. "Como eles insistiram com o projeto, pediram a saída", escreveu Bergoglio. Em meio aos boatos de um iminente golpe, ele recomendou aos padres cuidado e alertou que eles corriam risco, pois trabalhavam com os pobres.

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