Atualidade de Proust

Em coluna anterior, mostramos o modo como inesperado viés na leitura de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, veio a constituir uma apreciação alternativa da obra-prima da literatura francesa. Centrada na discussão sobre tempo e memória, a leitura canônica do romance foi sendo relegada ao segundo plano pela leitura alternativa, segundo plano que coubera a ela no passado. Ao destacar os manuscritos do romance, cuja redação foi atropelada pelas atrocidades da 1.ª Grande Guerra, responsáveis por sua vez pelo inchaço descrito pela metáfora do "tumor maligno", a leitura atual de Proust os prioriza para livrá-los da pecha de lastimáveis e sórdidos. Lembremos a máxima antiga: "Nada do que é humano me é estranho".

Silviano Santiago,

18 de agosto de 2012 | 04h43

Bafejado pelas recentes pesquisas na área da literatura gay ou queer, o antigo leitor de Em Busca do Tempo Perdido foi convidado a avaliar - com interesse crítico semelhante ao dispensado ao primeiro volume da obra, publicado antes da 1.ª Grande Guerra - a perspectiva aberta. O filme O Tempo Redescoberto, de Raoul Ruiz, exibe a imagem da leitura alternativa. A tela se abre para o espectador por tomada panorâmica em que, sobre a mesa, repousam manuscritos compostos à maneira de ininteligível colcha de retalhos. Acamado e à beira da morte, Proust dita à fiel Celeste algumas linhas, que logo serão corrigidas por ele. Como o crítico Feuillerat na década de 1930, Ruiz filma o romance pelo seu lado de dentro. Ao contrário de Feuillerat, concede primazia aos personagens que vivem o erotismo à flor da pele, como o barão de Charlus (John Malkovich) e Albertine (Chiara Mastroianni).

Dentro dos estudos de gênero (gender, em inglês) que abordam a temática lésbica, há acentuado interesse pela literatura escrita por, entre outras, Gertrude Stein e Virginia Woolf. O volume Sodoma e Gomorra, de Proust, era uma pedra no meio do caminho. Em crítica literária, a visibilidade lésbica negligenciara um aspecto importante da história das relações entre mulheres: a representação do homoerotismo feminino nos textos de autores masculinos. Para sanar a "negligência" na bibliografia crítica, a professora Elisabeth Ladenson (Columbia University) escreve Proust’s Lesbianism, ensaio que passou batido entre nós. No entanto, sua tradução ao francês traz prefácio de Antoine Compagnon, aclamado especialista em Proust e emérito professor no Collège de France. Previne Compagnon: o ensaio não deixará de perturbar (troubler) os proustianos franceses. Em seguida, afiança que também os convencerá da acuidade e da qualidade crítica da leitura de Ladenson.

As cidades emblemáticas de Sodoma e de Gomorra são objeto da curiosidade de Marcel, narrador de Em Busca do Tempo Perdido. A dissimetria entre elas - e não sua simetria bíblica - parte dum ponto comum: o voyeurismo do narrador. Ao mesmo tempo em que ele representa a homossexualidade masculina (Sodoma) como se em "salão transparente" (a expressão descreve o bordel de Maineville, frequentado por Charlus e Morel) e a dá como "segredo conhecido de todos", ergue barreira concreta (a cortina que baixa) e textual que cerceia a representação da homossexualidade feminina (Gomorra). A senhorita Vinteuil e sua amiga acreditam que "serem vistas acrescenta perversidade ao prazer" e, por isso, interditam o voyeurismo do narrador. Amam-se em segredo. Marcel sofre pela proibição, que lhe causa angústia. Não pode ver o casal amar, não pode descrever "a palpitação específica do prazer feminino", entrevista por ele apenas na "dança de seios contra seios" de Albertine e Andrée.

Segundo Ladenson, a dissimetria entre Sodoma e Gomorra se afiança pelo segredo a ocultar - ou não - o prazer sexual entre semelhantes. No texto de Proust, a cidade das mulheres "é a versão única de uma sexualidade capaz de guardar o controle de sua própria representação". Ao interditar o olhar de Marcel, a lésbica escapa ao modelo fálico. No entanto, o falocentrismo domina a cidade dos homens, cujo vocabulário não toca o lesbianismo proustiano. Domina ainda a inversão: busca-se um homem-homem, depara-se com um homem-mulher. Domina também as representações pornográficas (v. os filmes do canal GNT à meia-noite) do lesbianismo. Nestas, o prazer entre mulheres se representa para a lascívia masculina. A modelagem das cenas é direcionada pelo desejo fálico.

No romance Em Busca do Tempo Perdido, o lesbianismo é, segundo Ladenson, pedra de toque a avaliar a verdade do desejo do semelhante pelo semelhante. Não há inversões, não há modelagens fálicas e, assim sendo, a cidade das mulheres é "modelo único do desejo recíproco". Pela narrativa não-falocêntrica de Gomorra, vaga "o impossível fantasma do desejo recíproco". Esclarece a ensaísta: "começaremos a compreender o lugar da feminilidade e, portanto, da sexualidade em geral, se considerarmos os personagens lésbicos como estão descritos na obra de Proust". Por outro lado, acrescenta ela, o modo como o lesbianismo é representado nos textos dos demais autores masculinos só serve para nos dizer como se constroem, na cultura atual do Ocidente, os "estereótipos" de masculinidade e de feminilidade.

A mulher não é, pois, definida por uma "falta" (lack), como acreditava Freud. É antes dotada de "plenitude autossuficiente". Na economia sexual de Em Busca do Tempo Perdido, o sodomita, por ter sido representado em transparência e pela figura da inversão, acaba por afundar-se e se reconhecer na dramatização heterossexual do desejo e do amor. Por estar fora do ponto de visão de Marcel (narrador do romance, insista-se), o lesbianismo representa, na qualidade de "ponto cego epistemológico", a verdade da homossexualidade. O romance Em Busca do Tempo Perdido modela-se por uma "sensibilidade erótica fundada numa estética da mesmice (sameness), cujo modelo único é o do desejo recíproco".

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