Auditoria em painel internacional do clima pede reforma contra novos erros

O principal órgão científico da ONU - o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), prêmio Nobel da Paz de 2007 - precisa de reformas profundas para evitar novos erros na avaliação sobre o clima do planeta e restaurar sua credibilidade. Esse é o resultado de uma investigação independente feita nos últimos cinco meses, que agora ameaça derrubar o presidente do IPCC, o indiano Rajendra Pachauri.

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2010 | 00h00

A avaliação do InterAcademy Council, que reúne sociedades acadêmicas de vários países, entre eles do Brasil, destacou a falta de liderança no IPCC, de controle sobre as informações usadas e de transparência, os métodos científicos inadequados, os conflitos de interesses e a administração, tida como caótica.

Apesar de atravessar a maior crise de sua existência, em um momento crítico das negociações para um acordo ambiental global, o IPCC não teve contestada sua avaliação de que as mudanças climáticas estão de fato acontecendo e são causadas principalmente pela atividade humana. Pachauri, que insiste que isso é uma vitória para a entidade, insinua que quer permanecer no cargo até 2014, quando termina seu mandato e o IPCC divulgará seu novo relatório.

Mas Harold Shapiro, que liderou a investigação, admitiu que uma das conclusões "óbvias" de suas propostas era de que Pachauri deveria renunciar para permitir que a reforma seja realizada. A decisão ficará para os governos, que se reúnem em outubro e darão ou não um voto de confiança ao indiano.

Para os investigadores, o IPCC não considerou os questionamentos de dois cientistas que alertaram, antes da publicação, que os dados sobre derretimento dos glaciais do Himalaia estavam errados. Também afirmaram que as respostas dadas pela entidade diante da revelação dos erros foram "lentas e inadequadas". O IPCC levou mais de um mês para emitir um comunicado e nem assim deu explicações. Ontem, o IPCC apenas "lamentou o erro" sobre os glaciais.

Os investigadores consideram que a reforma necessária passa pelo fortalecimento da administração, com um comitê executivo, uma liderança forte e até membros de fora da área de ciência do clima. O mandato do presidente do IPCC também deve ser limitado a 6 anos - hoje o teto são 12 anos. Questionado ontem pelo Estado se estaria disposto a deixar o cargo diante da recomendação, Pachauri foi vago e indicou que fará o que os governos decidirem em outubro.

Os investigadores apelaram ainda para que uma política de conflito de interesse seja estabelecida e fique claro para quem cada um dos cientistas envolvidos no IPCC trabalhou ou trabalha. Hoje, não existe tal prática e não se sabe se um cientista que defende o uso de uma tecnologia está, na prática, sendo pago pela indústria daquele setor. O próprio Pachauri chegou a ser questionado sobre sua atuação em uma empresa de energia na Índia e em dois bancos europeus. "Eu estou pronto para dar minha declaração de renda para qualquer um."

Papel. Criado em 1988, o IPCC se transformou no principal formulador de ciência em relação às mudanças climáticas. Desde então, apresentou quatro relatórios sobre o clima no planeta. Nos últimos deles, de 2007 e 2008, revelou cientificamente que a mudança no clima é real e causada pelo homem. Também apelou para que a comunidade internacional lidasse com as mudanças climáticas, reduzindo emissões de gases. A constatação mobilizou governos, empresas e a sociedade civil em um debate que até agora não conseguiu chegar a um acordo.

Em 2009, um escândalo que ficou conhecido como Climagate atingiu o órgão. E-mails revelaram que cientistas teriam manipulado números no documento. No início de 2010 descobriu-se que a taxa de derretimento de glaciais não estava correta. O principal erro se referia à previsão de que os glaciais do Himalaia desapareceriam até 2035.

Diante do risco de um descrédito generalizado, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ordenou em março uma investigação completa sobre o trabalho da entidade, feita pelo InterAcademy Council. O grupo não questionou a conclusão principal do relatório que afirma que a temperatura do planeta está aumentando, prioritariamente em decorrência da ação humana.

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