Auge, miséria e redenção dos beaujolais

Crítico explica a crise da fórmula e enumera bons vinhos na região

Sébastien Lapaque, ESPECIAL PARA O ESTADO,

19 Novembro 2009 | 12h32

Todo ano, no mês de novembro, me pergunto se a criação da denominação "beaujolais nouveau", em 1951, foi uma boa ideia. No começo correu tudo bem. Entre Lyon e Paris, era um prazer degustar amáveis e despretensiosos vinhos novos, que permitiam descobrir o bouquet de aromas da Gamay do ano. Deveríamos ter ficado com essa simplicidade gourmand e amigável. O beaujolais nouveau é um vinho que não pode ser grande senão sendo menor. É gostoso porque é vinificado sem química e sem correções, surgido de leveduras nativas, engarrafado com uma dose muito leve de enxofre e destinado a ser bebido logo. Infelizmente, esse frescor natural se perdeu. O delírio de grandeza dominou os comerciantes, que incitaram produtores sem consciência a forçar as vinhas a produzir, enchendo seus mostos com açúcar de beterraba, quando faltava sol, e com ácido tartárico, se a uva estivesse muito madura. Em 1956, a produção era de 1,5 milhão de litro por ano; em 1973, 15 milhões; em 1978, 20 milhões; em 1990, 60 milhões... Depois desse recorde as coisas se acalmaram, mas já era tarde. O bom bebedor tornou-se desconfiado, e o beaujolais nouveau virou motivo de piada. Que sabor terá este ano? Banana, por causa da levedura 71 B? Frutas vermelhas, devido à levedura Adevis 522? O triste é que a má reputação do vinho novo abalou a popularidade do vinho engarrafado em maio e a dos dez crus do Beaujolais. A lista desses dez belos vinhos é recitada como um poema: juliénas, saint-amour, chénas, moulin-à-vent, fleurie, chiroubles, morgon, régnié, broully, côtes-de-brouilly. Esses crus, saídos da Gamay negra de mosto branco, se revelam gourmands, populares e aromáticos quando são produzidos por pessoas conscientes da herança que têm nas mãos. Conheço alguns bons artesãos, entre Mâcon e Villefreanche-sur-Saône. Quero homenagear aqui esses vinicultores que não se deixaram levar pelo dinheiro fácil e se mantêm obstinadas em voltar às origens. A exemplo de Marcel Lapierre, retomaram a lavra da terra, deixando de lado os cosméticos enológicos. Dez, 20, 30 anos de esforço permitiram-lhes reerguer o estandarte de suas denominações. Guy Breton, Jean Foillard e Jean-Paul Thévenet com o morgon; Yvon Métras com o fleurie; Georges Descombes com o brouilly; André Rampon com o régnié; Pierre-Marie Chermette com o moulin-à-vent. Os adeptos da bistronomia conhecem seus vinhos: estão nas mesas onde a melhor cozinha francesa dos últimos 15 anos se impõe. Entre a inspiração dos cozinheiros rebelados e a dos vinicultores não conformistas, o acordo é perfeito. * Sébastien Lapaque é jornalista de vinhos do Le Figaro e autor do guia Petit Lapaque

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