Aulas de história de volta

Há dois anos o ministro da Educação Nacional da França, Luc Chatel, expulsou a história e a geografia do ensino médio.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2012 | 23h50

Ele se dizia um homem "moderno", eficaz, prático: essa Idade Média, com seus reis, suas damas, seus construtores de igrejas, seus camponeses malvestidos e até analfabetos, tudo isso era antiquado. A data de prescrição já tinha passado. Para o lixo com a Idade Média!

E, além disso, por que perder tempo com a Renascença? Todos esses papas libertinos, esses Bórgia, esses "condottieri", esse tal Da Vinci, esse Giotto, não servem para nada, não vão ajudar a encontrar petróleo. Não rendem um tostão.

Quanto à Revolução Francesa de 1789, foi um bando de desaforados. E mesmo Napoleão era um bom soldado, de acordo, mas, enfim, para que serve narrar o seu gênio e sua loucura para alunos que, mais tarde, vão dirigir bancos, arrebatarão "partes do mercado" dos chineses ou construirão estradas do século 21? Ou somos modernos ou não, que diabo!

A história não se deixou envolver. Percebeu-se que os franceses adoram história. Um jornal popular, o Journal du Dimanche, aumentou sua tiragem quando promoveu o ensino da história e da geografia. Um protesto reuniu 28 mil assinaturas de pessoas indignadas.

Retorno. Hoje, depois de dois anos de abstinência, a história retorna graças ao novo ministro da Educação Nacional, Vincent Peillon. Ela será novamente ensinada até o último ano do ensino médio e será uma das provas obrigatórias do exame de admissão à universidade. Como nos velhos tempos.

A retirada do estudo de história era particularmente escandalosa num país como a França, como se a soma de 20 séculos tivesse sido segregada, cristalizada. Paris, Roma, Bahia, Londres ou São Luís do Maranhão, o que são senão uma caminhada trágica e luminosa pela memória do mundo?

E como compreender os arcanos da "modernidade" se o passado não pode ser percebido, um pouco como uma imagem que brilha atrás de um cristal?

Em 1939, foi dito ao grande historiador Marc Bloch que era inútil vasculhar o passado, quando eclodiu a 2.ª Guerra. Bloch respondeu: "Eu me informo sobre Carlos Magno e Robespierre para compreender a guerra que Hitler acabou de nos declarar".

Toda a pintura clássica, de Michelangelo a Picasso, de Cranach ou Dürer a Turner ou Paul Klee, é simplesmente uma maneira suntuosa de folhear os séculos que nos fabricaram.

Excesso de informação. Ocorre que o currículo escolar de um aluno do século 21 é tão avassalador que excede a capacidade de um adolescente comum. Como conseguiria ele amontoar na sua cabecinha todas as matemáticas, as ciências físicas e a economia, a ortografia e o inglês, a química, o estudo das leis, etc?

Se continuarmos a abarrotar os cérebros dos estudantes, eles acabarão explodindo. Esse é um dos grandes desafios do ensino. Esse desafio, a França acreditou tolamente que havia superado há dois anos, suprimindo numa penada uma disciplina julgada "inútil".

Não teria sido mais inteligente refletir sobre novas maneiras, novos métodos de ensino? Essa é uma missão sutil. Talvez seja até uma "missão impossível".

Contudo, mesmo impossível, ela merece ser levada adiante, em vez de demolir a grandes marteladas 2 mil anos da memória dos homens. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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