Auxílio material recolhido no Brasil tem destino incerto

Dificuldade logística dificulta envio de doações ao Haiti; para ONGs, dinheiro ainda é prioridade

João Paulo Charleaux, O Estadao de S.Paulo

21 de janeiro de 2010 | 00h00

Desde o terremoto do dia 12, em Porto Príncipe, milhares de brasileiros começaram a recolher objetos, roupas e alimentos para enviar ao Haiti. A torcida do Flamengo abriu pontos de arrecadação no Rio de Janeiro e sites da internet incentivam mais brasileiros a fazer o mesmo.

Mas agências humanitárias como os Médicos Sem Fronteiras (MSF) e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) desaconselham doações que não sejam em dinheiro. Catástrofes anteriores, como o tsunami no Oceano Índico em 2004, mostram que a maioria dos mantimentos recolhidos nunca sai do Brasil. A principal razão é o alto custo da complexa logística que pode envolver aviões e navios.

Informalmente, as agências humanitárias estimam o valor do frete de um avião de carga com capacidade para 40 toneladas num voo intercontinental em aproximadamente US$ 200 mil, considerando o "desconto humanitário".

"Não aceitamos doações que não sejam em dinheiro", disse ao Estado a coordenadora dos MSF no Brasil, Simone Rocha. "Manejamos cargas compradas, estocadas, customizadas e identificadas dentro dos nossos padrões. É um trabalho que exige conhecimento, rapidez e uniformidade do material."

Além do custo, outra dificuldade é a inadequação das doações. No último conflito entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza, em dezembro de 2008, um grupo de brasileiros incluiu entre os alimentos arrecadados uma carga de presunto defumado para a população palestina que, por razões religiosas, não consome carne suína.

Diferenças de cultura, clima, hábitos alimentares e, principalmente, a impossibilidade de processar alimentos crus tornam difícil organizar uma ajuda em massa não especializada.

"O que chegar aqui vai para São Luiz do Paraitinga", disse ao Estado Tiago Santos, da filial da Cruz Vermelha Brasileira em São Paulo. "Não temos como enviar nenhum material para o Haiti e temos muita gente precisando disso aqui mesmo."

Apesar da cautela das organizações humanitárias, a ONG Viva Rio está arrecadando ajuda material que deverá ser enviada para o Haiti até o dia 28. A carga sairia do Rio para Santos e, de lá, para a República Dominicana, onde entraria de caminhão no Haiti. A operação será financiada em parte com os R$ 300 mil que foram arrecadados até agora em dinheiro para ajudar os haitianos.

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