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Uma fala infeliz, mas absolutamente circunstancial, do presidente Luiz Inácio da Silva acabou propiciando ao PMDB a oportunidade que o partido esperava para marcar posição junto ao PT e lembrar que a hostilidade não é uma boa conselheira em casos de alianças partidárias para fins eleitorais.

Dora Kramer, O Estadao de S.Paulo

13 Dezembro 2009 | 00h00

Ao responder a um jornalista, no Maranhão, se preferia para vice de Dilma Rousseff o presidente da Câmara, Michel Temer, ou o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, Lula escapuliu da saia-justa vestindo outra justíssima: disse que o melhor mesmo seria o PMDB apresentar ao PT uma lista tríplice de pretendentes.

Isso exatamente num momento de estresse alto no PMDB. Por causa da citação de nomes da direção do partido, Temer inclusive, em vídeos apreendidos pela Polícia Federal na operação que flagrou corrupção no governo do Distrito Federal, e pelos problemas surgidos na composição da parceria entre PT e PMDB nos Estados.

Foi interpretado como uma afronta ao presidente licenciado do partido, em princípio definido como o mais provável indicado à vaga de vice, e uma intromissão indevida na dinâmica interna do PMDB.

Ademais, o clima entre os pemedebistas é de aguda desconfiança em relação aos petistas. Acham que o PT se sente confiante demais porque a indefinição da candidatura do PSDB, em tese, deixaria o PMDB por ora sem alternativa.

Temem também que o partido esteja sendo usado apenas para fortalecer a candidatura de Dilma para, mais à frente, se ela se firmar ou até mesmo assumir a dianteira, ser deixado de lado.

A fala de Lula provocou irritação, mas não é, na visão de um dirigente do PMDB, o que diz ou deixa de dizer o presidente em suas nem sempre coerentes e consistentes declarações, o que vai definir o destino da aliança.

"A aliança mela ou prospera dependendo do encaminhamento das negociações nos Estados", diz um integrante do alto comando do PMDB que recebeu vários telefonemas de explicações sobre o que dissera o presidente, entendeu a circunstância, mas continuou achando que havia muito de "conversa mole" nas justificativas do PT.

De concreto, aponta esse dirigente, o que existe são mais problemas que soluções nos Estados. Em Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro, onde se discutia a possibilidade de coligação, tudo caminha para candidaturas próprias.

Para o PMDB, que não tem projeto nacional e vive da força regional, é crucial ter candidaturas estaduais fortes para "puxar" a eleição de senadores e deputados.

Ocorre que para o PT, sem Lula como candidato e correndo o risco de perder a Presidência da República, as eleições regionais também são essenciais.

Meio a contragosto, o PMDB até compreende. Mas reivindica, no mínimo, que existam regras claras para onde houver dois palanques: a isonomia de tratamento por parte da candidata a presidente é o ponto principal. Se fizer declaração em favor do candidato do PT também terá de fazer em relação ao nome do PMDB, o mesmo se aplicando às visitas aos Estados e participação no programa do horário gratuito de rádio e televisão.

Nada disso está sendo discutido e, por isso o PMDB aproveitou a oportunidade para "endurecer", dramatizando o efeito da declaração de Lula.

A mensagem subjacente à nota de repúdio "à intromissão" é resumida por um pemedebista na frase do velho ditado: "Em tempo de murici, cada um cuida de si."

"Não estamos falando de carinho nem de amizade, estamos tratando de política e, se for para exacerbar no pragmatismo, o governador José Serra está bem à frente nas pesquisas."

Uma ameaça?

Não, um lembrete de que quem não tem alternativa é o PT, pois a candidatura está definida. Ao PMDB resta a opção do PSDB.

Como uma ala do partido já está comprometida com a oposição, a cúpula quer deixar bem claro que, se não for bem atendida, não terá condições de convencer os delegados do PMDB a aprovar a oficialização da aliança com o PT.

Sinuca ao Sul

O PSDB nacional quer se aliar no Rio Grande do Sul ao PMDB, com José Fogaça candidato, que não quer nem ouvir falar em ser apoiado pela governadora tucana Yeda Crusius, que afirma à direção de seu partido que sua situação "está melhorando" e, por isso, tende a concorrer à reeleição.

O que deixará ao candidato a presidente no seguinte dilema: como subir no palanque da correligionária politicamente fragilizada por denúncias de corrupção no governo e deixar de lado a companhia do bem avaliado prefeito Fogaça?

Ofensiva no Rio

O tucanato não desistiu de Fernando Gabeira como candidato a governador no Rio. São Paulo está acertado, de Minas cuida Aécio Neves, mas no terceiro colégio eleitoral do País o PSDB está ainda sem palanque e não vê saída a não ser Gabeira. Convencê-lo será tarefa de José Serra.

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