Alex Brandon/AP
Alex Brandon/AP

Azarão ou cavalo de troia?

Candidatura de Donald Trump à presidência dos EUA é um presente para a reeleição de Obama

LÚCIA GUIMARÃES,

23 de abril de 2011 | 11h55

Quando visitava Zurique, o escritor James Joyce se deparou com um jovem fã e a pergunta: "Posso beijar a mão que escreveu Ulisses?" "Não", respondeu Joyce. "Ela também fez muitas outras coisas." A anedota, contada pelo biógrafo do escritor, Richard Ellman, poderia ser repetida num momento de franqueza politicamente suicida por Donald John Trump Sr, que atende, com prazer, pelo apelido The Donald. Trump é um notório germofóbico e já declarou que tem nojo de apertar mãos. Beijar criancinhas, nem pensar.

Primeiro vamos estender, não a mão, mas o pescoço e arriscar uma previsão: o bilionário dos cassinos e de propriedades que levam seu nome (mas controla muito menos do que se pensa) tem tantas chances de se mudar para o número 1600 da Avenida Pennsylvania quanto Tiririca tem de esclarecer teoricamente a gravidade quântica. Caso a história me desminta, em novembro de 2012, prometo comer o papel onde estas palavras são impressas.

Se a candidatura de Trump a presidente é tão séria quanto seu penteado, aí, é outra coisa. E, já que estamos no campo teórico, o espectro de presidente Trump lembra outro dilema da física, a catástrofe de vácuo. Mesmo com a vitória legislativa de novembro, os republicanos continuam a amarrar cachorro com linguiça. Não acordaram para o fato de que pegar carona com lunáticos não constitui estratégia eleitoral num partido onde candidatos a presidente são abençoados na cúpula.

A mais recente pesquisa de opinião sobre o incontestável local de nascimento de Barack Obama - o Havaí, o Havaí, o Havaí! - mostra o resultado do vácuo de liderança: 47% dos eleitores republicanos ainda pensam que o atual presidente nasceu no Quênia. A Constituição americana não permite a eleição para presidente de cidadãos naturalizados. Ou já teríamos o forte sotaque austríaco de um Exterminador marchando para Washington.

O jornalista Timothy Egan, do New York Times, lembrou que Donald Trump, além de fonte inesgotável de material para os comediantes de fim de noite e de ridículo para os EUA no resto do mundo, tem mais em comum com Silvio Berlusconi do que os apliques capilares. E o bufão Berlusconi é o mais longevo primeiro-ministro italiano desde Mussolini. Ignorar o significado da disparada de Trump nas pesquisas e dar a ele espaço farto para regurgitar seu besteirol sobre a certidão de nascimento de Obama é ser cúmplice do reality show da direita.

O encanto dos americanos pelo justiceiro que entra atirando no saloon é especialmente fácil de cortejar, neste momento em que os problemas - da economia, da transformação demográfica e do status no mundo - são tão complexos que os atrativos de um cowboy simplificador se tornam irresistíveis.

Se o leitor acompanha a carreira de Trump, não faz muito tempo ele caiu de elogios sobre Barack Obama, chamou George W. Bush de "pior presidente da história", contribuiu com dinheiro para campanhas de democratas e defendeu o direito ao aborto.

Mas Trump, ao contrário da ossificada liderança republicana, tem, sim, um reality show, The Apprentice (O Aprendiz), e, com o abandono de quem não saberia mais soletrar compostura, já prometeu "uma revelação" para maio. Maio não é apenas o mês das noivas. É quando a audiência de TV é medida para estabelecer o preço dos comerciais.

Só agora, após semanas de passe livre ao novo queridinho do Tea Party, a imprensa americana começou a enfrentar o reality show com a realidade. Trump declarou falência quatro vezes, desde 1999, num esquema para se beneficiar vergonhosamente das leis financeiras americanas. Seus investidores perderam milhões, enquanto ele escapava da "reestruturação da dívida" um pouco mais rico. Sete milhões de famílias despejadas de suas casas com o furo da bolha imobiliária jamais poderiam sonhar com os paraquedas de Trump. Em 2007, ele processou o repórter Timothy O’Brien por ter escrito que sua fortuna não passava de US$ 250 milhões.

Juiz: Veja se compreendi. O senhor disse que a sua fortuna líquida aumenta e diminui com base no que sente?

Trump: Sim, nos meus próprios sentimentos, em como anda o mundo, e isso muda rápido, a cada dia.

Trump perdeu o processo. Imagine uma reunião do Conselho Econômico Nacional com o presidente The Donald. Trump, ao menos, já inspirou um neologismo: fauxgul - contração de faux, falso, com mogul, empresário poderoso -, um sujeito que afirma ser mais rico do que é. Uma ilusão coletiva não dessemelhante da que fez encalhar o transatlântico da economia americana. Ainda que possa financiar a própria campanha, vai ser difícil a ele escapar do circo que armou e da fama de ser o "Charlie Sheen do Partido Republicano". Depois de passar anos chafurdando no bas fond da mídia de celebridades, trocando insultos com gente da pior laia, sua candidatura, por enquanto, parece um presente para a reeleição de Barack Obama. Se Trump sair para o corpo a corpo da campanha, sua aversão aos germes pode ser o menor dos problemas. Como lembrou o romancista de Dublin, as mãos do bilionário andaram muito ocupadas.

Mais conteúdo sobre:
aliás

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.