Bactéria transfere genes para hospedeiros, mostra pesquisa

A mosca D. ananassae transfere para os descendentes uma cópia quase completa do DNA da Wolbachia

Carlos Orsi, estadao.com.br

30 de agosto de 2007 | 15h04

Bactérias presentes em insetos e nematódeos - vermes, como as lombrigas - transferem seus genes para os hospedeiros, e esses genes de bactéria acabam se integrando ao genoma do receptor e passando para as gerações seguintes, de acordo com pesquisa publicada no serviço online da revista Science, o Science Express.   Veja também:  Science Express (íntegra para assinantes)   Esse tipo de transplante genético entre diferentes organismos  é conhecido como transferência lateral, e o fato de ocorrer de bactérias para vermes e insetos surpreende: esses hospedeiros são eucariotes, seres vivos que mantêm o material genético guardado e protegido no núcleo das células. Até agora, pesquisadores envolvidos no levantamento do genoma de eucariotes vinham atribuindo a maior parte das seqüências de DNA de bactéria encontradas à contaminação de amostras.   "Não sabemos por qual mecanismo a transferência lateral ocorre", reconhece uma das autoras do estudo, Julie Dunning Hotopp, do Instituto de Pesquisa Genômica - Instituto J. Craig Venter. "Só sabemos que ocorre, e com uma certa freqüência".   A pesquisadora pondera que a espécie de bactéria identificada como fonte dos genes transferidos vive dentro de óvulos, esperma e embriões. "O que oferece ampla oportunidade para transferir seu DNA para os cromossomos do hospedeiro, de forma  a ser herdado pelos descendentes", diz.   A bactéria que realiza a transferência é a Wolbachia pipientis, que infecta cerca de 20% de todas as espécies de inseto. O trabalho da equipe de Dunning Hotopp encontrou genes da Wolbachia  em 11 espécies, sendo que o genoma da mosca Drosophila ananassae contém uma cópia quase completa do DNA da Wolbachia.   A pesquisadora descarta a possibilidade de a coincidência entre seqüências de DNA ser apenas uma coincidência - por exemplo, fruto de convergência ao longo da evolução: evolução convergente gera funções e características semelhantes, mas não necessariamente identidade entre os genes.   "A convergência só é válida se houver comparação no nível das proteínas, porque só seqüências de proteína podem convergir, com base na função", afirma. "Neste caso, o que vemos é uma grande semelhança no nível do DNA", que chega a quase 100%, no caso da seqüência transferida para a Drosophila.   Além disso, diz ela, certas seqüências copiadas para alguns hospedeiros aparecem em outras espécies da bactéria Wolbachia, mas não em outros hospedeiros. "Assim, sabemos que o DNA está se movendo da bactéria para o eucariote".   A pesquisadora não acredita que seres humanos, que também são eucariotes, possam estar herdando genes de bactérias.   "O genoma humano já foi extensivamente checado para genes de origem bacteriana, e nenhum foi encontrado", diz ela.   "É possível que uma transferência não-hereditária ocorra", com uma bactéria copiando genes para uma célula humana, como alguns vírus fazem. "Mas isso não passaria para os descendentes".

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