Baile da diversidade

Danceability é uma experiência que envolve pessoas com corpos diferentes e em que o potencial de cada aluno contribui para a riqueza de todos os participantes

Cristiana Vieira,

30 de janeiro de 2011 | 10h00

   

 

Uma boa maneira para começar a explicar o que é o danceability é dizer que se trata de uma dança com grupos que apresentam diversidades - sejam elas físicas, raciais, culturais, sociais ou mentais cognitivas. Pessoas com e sem deficiência se reúnem para explorar sua veia artística num ambiente acolhedor, em que a autonomia é estimulada através de exercícios não ensaiados que se transformam numa dança. Para os adeptos, é uma forma de democratizar a expressão artística para corpos diversos. "Você vem como é, como está. E está ótimo", diz Neca Zarvos, que é atriz, dançarina, professora certificada do método e fundadora do Núcleo Dança Aberta.

 

Danceability é um movimento rítmico. Mas pode ser uma boa improvisação. Há quem diga que é um estado de libertação. Talvez o mais apropriado seja chamar de atividade inclusiva. O legal mesmo é chegar e soltar o corpo, como quer que ele seja - inteiro ou sem algum membro. O importante é respeitar os limites, descobrir-se e expressar seu mundo interior.

 

Neca explica que, ali, todos são iguais por terem as mesmas possibilidades de participação. Os movimentos não são predeterminados para não correr o risco de excluir algum participante. "Não posso dar um comando que alguém do grupo não possa fazer." Durante a aula, segundo ela, todos entram em contato com seus limites e com os dos outros. Ninguém cuida de ninguém. Se precisarem de ajuda, vão pedir. E terão. "Isso muda o jeito de ver as coisas. E não é através do discurso, é da experiência."

 

Cadeiras de rodas e muletas se transformam em instrumentos e já serviram de objeto cênico num espetáculo. Até para as apresentações, como o Joy Lab Research, que ocorreu em São Paulo, em 2007, as coreografias são criadas a partir da improvisação. "A surpresa do resultado é muito rica", diz Neca. Ela esclarece que o danceability não é terapia, é pura arte. Quando todos trabalham juntos, a tensão do primeiro momento e o medo do que é diferente se rompem. "O que torna uma sociedade não deficiente é garantir o acesso a todos. Independentemente da capacidade física e do nível social", diz. Outro detalhe é a música, que nem sempre soa alto. Pois, às vezes, explica Neca, "é preciso escutar o que está dentro de você".

 

História. O Projeto Danceability  foi fundado por Alito Alessi e Karen Nelson, nos Estados Unidos, em 1987. A partir daí, já criou comunidades de danças integradas por pessoas de diferentes culturas nos Estados Unidos, Europa, América Central e América do Sul. No Brasil, vem sendo introduzido através de workshops e performances desde 1997. Dançarina de contato, Neca começou a dar aula em instituições, estúdios e fez um curso com Alessi na Argentina.

 

Foi ela quem produziu, em São Paulo, o Projeto Danceability Brasil 2007. Além de workshops, o evento teve a participação de Alessi na direção de um espetáculo com dançarinos brasileiros, apresentado na mostra Sob Um Novo Olhar. No ano seguinte, o Núcleo Dança Aberta conseguiu patrocínio, depois de muita luta, para montar uma oficina. O orçamento previa até o transporte dos participantes. Afinal, muitos não se inscreviam pela dificuldade de se locomover em São Paulo.

 

 

 

 

Agora, Neca está ansiosa para receber Alessi novamente por aqui para um projeto inédito: dar aula e certificação de danceability para professores. A partir desta segunda-feira, 31, ele vai ministrar um curso, em Florianópolis (SC), para a formação completa nessa modalidade. Quem participar das aulas terá direito a um manual com todos os exercícios e a filosofia do trabalho, em português - o que ainda não existia.

 

Neca lembra que, em seu primeiro workshop, ficou tocada por perceber que o trabalho, voltado para deficientes, contribuía para o seu próprio desenvolvimento pessoal. Diz que foi uma experiência interessante como artista de improvisação por poder lidar com quem nunca se movimentou antes. "Eu mesma fui levada a movimentos que não imaginava poder dominar", admite.

 

Como diz, a aula de danceability cria um modelo de sociedade possível, em que o potencial de cada um contribui para a riqueza de todos. Mas, para manter tudo isso, é preciso o mínimo de estrutura, como um estúdio e o transporte para os participantes que necessitam. Por isso, as portas estão abertas à espera de um patrocinador - que, em contrapartida, poderá usufruir da isenção de impostos.

 

 

Serviço:

Email: necazarvos@gmail.com

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