Bairrada no baile

Sem depressão pós-Pato. Na região portuguesa, famosa pelo trabalho do químico Luís Pato, 'domador' de uvas intragáveis, a história continua

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

04 Março 2010 | 02h57

A frase "Luís Pato domou a uva Baga" já foi lida por você, com certeza. Ela está presente em todos os artigos sobre a região da Bairrada. A explicação é evidente. Pato, um amável cavalheiro de amplos bigodes lusitanos, pegou a uva típica da região, de má fama por sua acidez intransponível e seu temperamento difícil, e deu-lhe ares de grande casta.

Os vinhos de Pato foram saudados como pioneiros pela crítica, pois mostraram que a Baga não precisava ser barrada no baile das grandes uvas. Na sua definição, a Baga é "uma Nebbiolo portuguesa", o que de fato aparece no aroma de alcatrão de alguns dos vinhos provados.

Mas a história continuou, ele saiu da denominação de origem e passou a vender seus vinhos como Beiras, região vizinha. Ou seja, a mais notável figura da Bairrada já não faz vinhos de lá... (parece que voltará em breve à origem). Vai entender.

Aqui interessa, mais que questões paroquiais de gestões das DOCs de Portugal, o que acontece com a uva. A Baga passou a ser querida - sozinha ou amansada por outras uvas - e foi deixada evoluir em carvalho de qualidade. Os produtores tomaram gosto pela variedade rejeitada.

É essa nova Baga pós-revolução de Pato que fomos provar. Um painel de nove vinhos em que havia de tudo, Baga pura e as excêntricas e bem-sucedidas maluquices de Carlos Campolargo, que ousa até a mistura, nada usual, com Pinot Noir. Os cinco mais destacados da degustação estão comentados ao lado.

Modernaharmonia

Outra conexão automática, além de Pato/Bairrada, é a de Bairrada/Leitão. Tudo bem, o leitão assado é típico da região e suas gorduras generosas são bela companhia para a acidez dos vinhos. Porém, os vinhos tintos feitos com Baga podem ser muito amigos de molhos mais ácidos. Igual à Sangiovese, a Baga vai muito bem com molho de tomate e pode bem acompanhar uma pasta dominical bem atomatada e singela.

*** SIDÓNIO DE SOUSA Reserva 2001 (World Wine,

tel. 3372-3400)

Tem um aroma curioso de graxa, com algo de alcatrão e floral. Na boca, é muito mineral, tem taninos potentes e acidez marcante. Pura Baga de solos calcários, o vinho de uma pequena empresa familiar é delicioso, mas precisa acompanhar comida

** CASA DE SAIMA 2004, Reserva (Decanter, tel. 3073-0500)

Bem potente no nariz, mas austero. Apesar do tempo de garrafa ainda precisa um tempo para arredondar. Bom corpo e concentração. Na boca, tem enorme mineralidade, delicioso contraponto para a acidez

** ENTRE Il SANTOS 2006, Campolargo (Mistral,

tel. 3372-3400)

Mistura franco-lusitana, corte de Baga, Castelão e Pinot Noir, que resulta num vinho macio e frutado. Campolargo inventa vinhos atrevidos. Este tem a marca da acidez da região e a notável presença da Pinot

** QUINTA DO ENCONTRO 2006 (Winebrands, tel. 3016-3421)

Bom aroma de fruta e algo de chocolate. Na boca, tem taninos ainda duros e acidez por polir, mas já está bom para comida. A Merlot é a amaciadora da Baga, neste caso

** CAVES SÃO JOÃO 2005 Reserva (Vinci, tel. 2797-0000)

Corte de Baga e Touriga Nacional (vinda da região de Dão), o vinho é bem elegante. A Touriga se mostra uma perfeita companhia para a Baga, lustrando sua rusticidade

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