Balão apagado

O título desta coluna poderia aplicar-se ao que muitos estão sentindo em relação ao Palmeiras, que semanas atrás era não apenas o líder do Campeonato Brasileiro como também uma equipe apontada por público e crítica como a grande barbada para levantar o caneco. Não tive essa intenção. A metáfora do título não se dirige ao Palmeiras, ainda que também o envolva. Balão apagado é uma expressão normalmente associada a alguma coisa que perde força, que para de subir, que vai despencando. Mas ela também pode ser usada - e quem é do subúrbio sabe disso - para designar algo que não tem dono. Lá em Madureira, balão apagado é como pipa "voada": é de quem pegar. Foi pensando nessa imagem que batizei a coluna.

Marcos Caetano, O Estadao de S.Paulo

24 de outubro de 2009 | 00h00

O título do Brasileiro de 2009, não é de hoje e já escrevi sobre isso, é uma donzela que está apenas esperando por um príncipe encantado. Se quisermos continuar no mundo das metáforas (pela última vez, prometo), é como um sapo que aguarda ser beijado pela princesa para se transformar em belo príncipe. Gosto mais desta última metáfora. Afinal de contas, o andamento da principal competição esportiva do País se parece mesmo com um sapo: feio, esquisito, difícil de entender e mais difícil ainda de agarrar. Digo isso porque, fora uma equipe ou outra capaz de uma sequência boa - como o Palmeiras da metade da temporada e o Flamengo das últimas rodadas -, o nível técnico da disputa é sofrível. É inconcebível um torneio de futebol no qual o líder perde jogos seguidos para equipes da zona de rebaixamento, como o Verdão diante do Náutico (um 3 x 0 inapelável) e do Santo André (que fez seus dois gols andando na área adversária).

Se as derrotas palmeirenses tivessem ocorrido por conta do esplendor do Timbu e do Ramalhão, seria justificável. Mas esses clubes têm aproveitamento condizente com as piores campanhas da história dos pontos corridos no Brasil. Basta lembrar que o lanterna Fluminense foi a Santo André e conseguiu bater os donos da casa. A razão da perda de rendimento do Palmeiras provavelmente decorre de múltiplos fatores, mas esse fato está longe de ser tão bizarro quanto a incapacidade de seus perseguidores para ultrapassá-lo. Todas as vezes que o time de Muricy tropeçou - e foram muitas - os demais candidatos deram um jeito de tropeçar também, num movimento que flertou com a solidariedade. E não foram um ou dois perseguidores, mas todos. O São Paulo, o Atlético-MG, o Internacional, o Goiás... Se o Cruzeiro tivesse curado a ressaca da perda da Libertadores um pouco antes, se o Flamengo tivesse programado seu habitual despertador do segundo turno para uma horinha mais cedo e se o Corinthians tivesse recolhido a toalha que atirou precipitadamente ao chão, tudo estaria ainda mais embolado.

O Corinthians - por pura acomodação, insisto - perdeu a chance de embarcar no trem que leva ao título. Mas o Flamengo e até o Cruzeiro se dependuraram nele. Vou mais longe: se o Grêmio ganhar o GreNal, entra na briga. Como a sina da perda de rendimento é algo que afetou todos os clubes que chegaram às primeiras posições até aqui, não arriscarei novos favoritos. Mas, momento por momento, ou melhor, movimento por movimento, Flamengo e Cruzeiro parecem mais dispostos a beijar o tal sapo. Se essa síndrome da apatia dos líderes serviu para alguma coisa, além de baixar a qualidade do campeonato, foi para confundir tudo.

A poucas rodadas do fim, 13 clubes brigam pelo G4, enquanto sete ou oito, pelo título. Nunca havia visto coisa parecida. Nem em contos de fadas. Mesmo nos de sapos e princesas.

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