Baleias enófilas

Quando a crise econômica atingiu em cheio o Uruguai, em 2001, muita gente emigrou, outros arranjaram empregos temporários como taxistas ou viraram pequenos comerciantes. A economista Paula Pivel e o marido Álvaro saíram do banco em que trabalhavam e escolheram um caminho peculiar: a vinicultura. Compraram terras perto de Punta del Este, numa região fora da zona vinícola tradicional do país, e fundaram a Alto de la Ballena. Paula estudou enologia e Álvaro cuidou da logística de criar uma bodega do nada.

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2010 | 01h22

Minha visita foi num dia gelado e chuvoso. Ela e eu empacotados em agasalhos, cachecóis e chapéus, resvalando nas pedras cheias de musgo morro acima, na prazerosa tarefa de sujar os sapatos no chão dos vinhedos.

O lugar é lindo - poucas paisagens são tão bonitas quanto as de uvas plantadas em encostas. O "alto" no nome da região é válido para o Uruguai, cerca de 120 metros acima do nível do mar. Além de estar num local fora do mapa dos vinhos, Paula inova também na escolha de uvas. Faz um ótimo Tannat-Viognier, um recurso enológico que é o uso de um toque de brancos nos tintos, algo mais comum no Rhône e inédito com a Tannat. Entretanto, o foco da produção são os Merlots.

Provei dos diversos tanques de fermentação, Merlots de parcelas distintas e com grande diferença entre eles, um com mineralidade intensa, do vinhedo mais calcário. Ela tinha outras surpresas para mostrar - um estruturado Cabernet Franc e um fresco rosé da mesma uva. Foram 12 vinhos degustados, todos com boa acidez, corpo, madeira usada com muita sutileza e bom foco, mas num estilo moderno, só que sem exageros de extração e concentração.

No caminho de volta, o nome do lugar fez sentido: a serra tem mesmo o formato do dorso de uma baleia, e a região é onde elas costumam aparecer. Estamos na época em que visitam com mais frequência a costa e se deixam ver. Uma mostrou o flanco no mar, cercada por golfinhos.

Paramos, fotografamos. Detalhe: provei aquela dúzia de vinhos, mas não engoli, era uma baleia de verdade... Juro que vi.

ONDE COMPRAR

D"olivino (tel. 5531-7573)

O Tannat-Viognier 07 (R$ 123), o Merlot 06 (R$ 112) e o Merlot-Cab. Franc-Tannat 06 (R$ 62).

OS VINHOS

O Merlot 2006 tinha um toque de casca de marisco e salinidade bem minerais no nariz. Os 12 meses de carvalho francês não se notam, madeira muito bem integrada. É saboroso, muito fino, taninos redondos e ótima acidez. Belo vinho.

O meu favorito foi o da foto ao lado, ainda não disponível no Brasil, o Cabernet Franc Reserva 2007, com um nariz muito floral e toque de casca de laranja e o aroma típico da casta, que relaciono com goiaba. É um CF frutado, mas austero e equilibrado, merece um período de guarda, pois os taninos se tornarão mais macios. Tem boa acidez, é bem gastronômico

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