Banco de DNA criado por espanhol localiza 550 crianças desaparecidas

Maioria dos casos está concentrada no Peru e na Guatemala; estratégia também impediu 200 adoções ilegais

SUZANNE DALEY, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h08

Há uma década, quando seu táxi atravessava os bairros pobres de Lima, o especialista em genética forense Jose A. Lorente começou a pensar no sofrimento das crianças de rua. No Peru para dar consultoria a policiais sobre a identificação dos corpos de terroristas, Lorente perguntou à polícia o que era feito para identificar crianças desaparecidas e reuni-las com suas famílias. E ouviu que não era possível fazer nada.

"Eu sabia que havia uma maneira", disse ele. "Se podemos nos manter informados sobre o pedigree de cachorros e cavalos de raça, por que não poderíamos fazer o mesmo com crianças?"

O espanhol Lorente, de 51 anos, ganhou manchetes em todo o mundo ajudando a identificar os restos de Cristóvão Colombo e Simón Bolívar e de corpos desenterrados de valas comuns no Chile e alhures. E, ao longo do caminho, também conseguiu persuadir autoridades de 16 países - entre os quais Guatemala, México, Peru, Equador, Brasil, Nepal, Indonésia, Malásia, Índia e Tailândia - a montar bancos de dados de DNA para permitir a identificação e reunião de crianças desaparecidas a suas famílias.

Sonho. A ideia é bastante simples. Em sua imaginação, Lorente vê uma rede de bancos de dados nacionais armazenando o DNA de pais que perderam filhos. Assim, quando crianças são encontradas, mesmo anos depois, o dados podem ser casados. Ele também vê esses bancos de dados com um papel fundamental na prevenção de adoções de crianças roubadas e no desmantelamento de redes de tráfico.

"Isso é factível, e deveríamos estar fazendo", disse Lorente. Ele reconhece que é uma grande ambição para um civil que está à frente de um laboratório de genética em Granada, uma das menores cidades da Espanha. "Minha mulher diz: 'Muito bem, agora você é um Dom Quixote, certo?'" Lorente ri. Mas ele argumenta que sua ideia faz sentido e que acabará se impondo.

Enquanto isso, a fundação que ele criou em 2004, DNA-Prokids, vem fornecendo a países interessados milhares de testes e kits de coleta de DNA grátis. Por enquanto, ele afirma, os testes grátis foram usados para reunir cerca de 550 crianças a suas famílias, a maioria delas na Guatemala e no Peru, e impediram mais de 200 adoções ilegais.

Lorente acredita que as adoções sempre deveriam envolver um teste genético para assegurar que os pais que estão entregando uma criança são realmente seus pais. E diz que 80% das crianças de rua do mundo têm famílias que ficariam contentes de tê-las de volta se as encontrassem. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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