Bancos adotam Protocolo Verde, mas vantagem no crédito é incerta

A adesão dos grandes bancos privados do país ao Protocolo Verde, que vincula a concessão de crédito ao atendimento de critérios socioambientais, deve deixar sem rota de fuga os empresários que desconsiderarem essas práticas, segundo integrantes do setor bancário.

EDUARDO SIMÕES, REUTERS

03 Julho 2009 | 15h44

A concessão de taxas, prazos e outras condições mais favoráveis a tomadores com responsabilidade socioambiental é um dos pontos do protocolo, que já teve a adesão de bancos públicos federais.

"São os maiores bancos", afirmou o diretor de Relações Institucionais da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Mario Sergio Vasconcelos, ao se referir às instituições financeiras que aderiram ao protocolo, uma das bandeiras da gestão do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc.

Segundo o diretor da Febraban, estão entre os bancos que já assumiram o pacto pesos-pesados do setor, como Itaú Unibanco, Santander Brasil, Bradesco e HSBC, entre outros.

E é justamente a presença dessas grandes instituições que dá à superintendente de desenvolvimento sustentável do Santander Brasil, Linda Murasawa, a segurança de que as exigências ambientais não se tornarão um agravante do atual momento de aperto do crédito nem uma desvantagem competitiva para os bancos que as adotarem.

"Praticamente você falar dos grandes bancos, você está falando de 80 por cento do mercado. O fato de o Protocolo (Verde) ser uma autorregulação do setor financeiro vai impedir que isso aconteça", disse.

Ela lembra, no entanto, que quando o Banco Real, que foi comprado pelo Santander, passou a adotar critérios ambientais na concessão de crédito, houve casos em que a instituição perdeu o cliente. "Em alguns momentos tornava-se desvantagem porque o cliente falava 'não, eu vou a outro banco porque vocês pedem muita coisa'."

Ainda não está claro, no entanto, o tamanho das vantagens que um tomador de crédito terá ao adotar práticas socioambientais responsáveis. Segundo a superintendente do Santander, os clientes que atendem a esses princípios são direcionados a linhas de crédito mais vantajosas, embora reconheça ser "muito complexo" quantificar essas vantagens.

Já para a superintendente de riscos de crédito do Itaú Unibanco, Inês Silva, não existe "uma grande diferença" no momento da concessão de crédito pela adoção de práticas socioambientais, mas ela enxerga oportunidades em outras áreas para as companhias que seguirem esse caminho.

"Sinceramente, se a gente for pensar se de fato dá uma grande diferença, não dá tanto não. Acho que as empresas começam a olhar para esse aspecto mais na construção da melhor imagem, de acesso a novos mercados, de antecipação em alterações em legislação", disse.

RISCOS DE CRÉDITO

A executiva do Itaú Unibanco argumenta ainda que empresas com práticas sociais e ambientais corretas têm, geralmente, risco de crédito menor.

Para o diretor de campanhas do Greenpeace no Brasil, Sérgio Leitão, a questão da avaliação de crédito é o que ainda leva instituições financeiras a, indiretamente, evitar projetos com problemas ambientais.

"No caso dos bancos privados você tem algumas coisas que, pelo risco do acionista, os bancos pelo menos têm tido um pouquinho mais de cuidado em entrar em situações que possam lhes prejudicar", afirmou. "Aí não é nem pela questão ambiental em si", disse ele, para quem os bancos ainda podem fazer mais.

"Um exemplo clássico é o financiamento na área de veículos, que são os maiores responsáveis pelo aumento de emissões na cidade, pela questão da mudança climática", afirmou.

"Em nenhum momento no Brasil, como se fez em outros países, essa concessão de financiamento esteve vinculada a exigir da indústria automobilística a fabricação de carros com melhor desempenho ambiental."

Outro ponto mencionado no Protocolo Verde é a publicação anual pelos bancos dos resultados da implantação dos princípios do acordo. Algumas instituições já publicam na Internet balanços de sustentabilidade.

Além da adesão dos principais bancos privados, já aderiram ao Protocolo Verde os estatais Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco da Amazônia e Banco do Nordeste, segundo o governo.

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