Bancos recuperam autonomia para falir

Lá está o presidente dos Estados Unidos, sentado em seu gabinete na Casa Branca, as câmeras filmando enquanto ele conversa com os diretores dos maiores bancos do país, todos beneficiados por um extraordinário esforço do governo no ano passado para evitar o colapso do sistema financeiro. O propósito da reunião é pressionar os bancos a aumentar a disponibilidade de crédito para pequenas empresas, a reestruturar as hipotecas problemáticas, em vez de empurrá-las para a moratória, e a recolher seus lobistas, que tentam amenizar as propostas do governo para a reforma da regras bancárias.

Steven Pearlstein*, O Estadao de S.Paulo

19 Dezembro 2009 | 00h00

Ao mesmo tempo, no contíguo Departamento do Tesouro, funcionários do governo acrescentam os toques finais aos acordos que reduzirão dramaticamente o poder do governo sobre esses bancos ao permitir que eles devolvam o dinheiro recebido do contribuinte dentro do plano de resgate.

Será que é isso o que a Casa Branca de Barack Obama chama de negociações agressivas e castigos políticos? Já é suficientemente ruim que a grande prioridade do presidente, a reforma do sistema de saúde, tenha sido sequestrada por um senador hipócrita, que parece incapaz de decidir em qual lado ficar. Mas, numa capital onde é mais importante ser temido do que amado, é ainda pior para um presidente atacar os "gatos gordos" de Wall Street num dia para então soltá-los da coleira no dia seguinte.

Até onde posso perceber, os principais funcionários do governo estão preocupados com a raiva dos eleitores em relação ao resgate dos bancos e seu subsequente impacto na popularidade do presidente nas pesquisas de opinião. Assim, eles procuram alguma maneira de mostrar que a economia está se recuperando, que o governo não vai apenas reaver o dinheiro gasto no resgate, mas também lucrar um pouco.

No entanto, na pressa de trocar suas fichas por dinheiro, o governo não apenas desistiu do poder de influência política e do lucro, como também assumiu o risco de algum desses bancos se descobrir incapaz de se sustentar com as próprias pernas. Apesar de o sistema financeiro ter se recuperado mais rápido do que poderíamos imaginar, ainda existem ameaças em potencial - um colapso ainda mais completo do mercado imobiliário, por exemplo, ou uma sequência de moratórias de fundos soberanos. E o lucro dos bancos, apesar de ter se recuperado, continua significativamente dependente da disponibilidade de financiamento barato do Federal Reserve (Fed) e outros bancos centrais, que não pode durar indefinidamente.

Em outras palavras, ainda não estamos livres do perigo. Foi esse o motivo citado pelo secretário do Tesouro, Tim Geithner, quando notificou o Congresso, na semana passada, de que o tão malquisto Programa de Alívio para Ativos Problemáticos (Tarp, em inglês) seria prorrogado por um ano. Mas, de alguma maneira, essa cautela foi descartada quando Bank of America, Citigroup e depois Wells Fargo exigiram ser libertados do estigma e da supervisão adicional que acompanham os fundos do programa.

É claro que o pedido dos bancos de quitar suas dívidas com o governo, feito por todos eles no intervalo de duas semanas, teve a aparência suspeita de ser motivado não por fundamentos financeiros, mas pelo mesmo instinto de manada que meteu os bancos em encrencas, para começo de conversa. Nada indica que os bancos ainda submetidos às regras do Tarp estejam sofrendo com a fuga de correntistas nem que enfrentem custos de financiamento significativamente maiores.

E, apesar de os bancos apontarem rapidamente os executivos que não puderam contratar e os negociantes que foram atraídos por fundos de hedge por causa das restrições à remuneração impostas pelo Tarp, isto não significa que não haja um grande número de pessoas igualmente talentosas que adorariam ocupar esses cargos em troca de salários inferiores aos do Goldman. Certamente não houve dano em usar as restrições do Tarp para desacelerar a destrutiva corrida armamentista de Wall Street.

O melhor argumento daqueles que defendem a libertação dos bancos das regras do Tarp é que os investidores estão novamente dispostos a fornecer o capital particular necessário para devolver o dinheiro ao governo e proporcionar uma margem de segurança suficiente contra perdas futuras. É certamente encorajador que os bancos tenham arrecadado US$ 160 bilhões nos mercados este ano. Mas perdoe meu ceticismo se destaco que foram esses mesmos mercados que arremessaram dinheiro na direção desses mesmos bancos durante a bolha. Se há uma lição que os reguladores deveriam ter aprendido com o desastre, seria: eles precisam avaliar por conta própria o balaço patrimonial dos bancos, sem confiar na infalibilidade dos mercados.

Quanto ao motivo por trás da disposição dos investidores de por dinheiro nas ações dos bancos, basta consultar a classificação de crédito atribuída pela Standard & Poor"s ao Bank of America na véspera de sua recente oferta de ações. "Consideramos o BofA de alta importância sistêmica, e assim continuamos acreditando que o BofA receberia um extraordinário auxílio do governo, caso necessário, apesar de não acharmos que esta necessidade surgirá", dizia a avaliação da agência. Em outras palavras, eles foram resgatados uma vez, e podem ser resgatados novamente.

A S&P estava enganada a respeito do BofA antes e pode estar outra vez. A realidade política é tal que nenhum banco - certamente não o BofA nem o Citigroup - será resgatado num futuro próximo, não importa o seu tamanho nem a sua importância para o sistema. Da próxima vez que o governo for obrigado a intervir, os acionistas do banco em questão serão eliminados, seus executivos e diretores, postos para correr, e suas operações reduzidas ou vendidas a concorrentes. O mais importante: credores e parceiros que foram resgatados no passado receberão apenas o que teriam obtido numa liquidação comum.

As regras que regerão esse processo de redução e desativação ainda estão sendo elaboradas como parte da proposta de reforma regulatória que avança atualmente pelo congresso. Até que a proposta seja transformada em lei, seria melhor manter os bancos exatamente onde estão: sob o jugo protetor do governo que os resgatou.

*Steve Pearlstein é jornalista

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.