Bancos têm US$ 123 bi nos Emirados

Exposição é principalmente de bancos europeus e revela o tamanho da preocupação com a moratória em Dubai

Jamil Chade e Andrei Netto, GENEBRA E PARIS, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

A moratória da dívida do Dubai World - um conglomerado estatal dos setores financeiro, portuário e imobiliário de Dubai - provocou uma onda de nervosismo no mercado financeiro internacional, com quedas nas bolsas da Ásia e dos Estados Unidos e um receio de que o fim da crise financeira global tenha sido decretado cedo demais. Ontem, enquanto governos tentavam acalmar os mercados, investidores faziam as contas do potencial de prejuízos com a crise em Dubai e do risco de um efeito cascata, com novas quedas de bolsa ou quebras de bancos e empresas.

O Dubai World, um dos três maiores conglomerados de Dubai, tem um passivo consolidado de US$ 60 bilhões. No dia 14 de dezembro, teria de pagar aos credores uma dívida em bônus de US$ 3,5 bilhões. A dívida total de Dubai chega a US$ 80 bilhões. Em 2008, o banco que fez um maior número de empréstimos a projetos nos Emirados Árabes Unidos foi o HSBC, com US$ 17 bilhões.

Dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS, o banco central dos bancos centrais) mostram que os bancos estrangeiros têm US$ 123 bilhões em empréstimos em Dubai e nos demais Emirados Árabes Unidos. Os bancos europeus seriam, de longe, os mais afetados, com créditos aos Emirados de US$ 88 bilhões.

Dados da Associação de Bancos Emirados (EBA) indicam que a exposição de três grandes bancos britânicos aos Emirados Árabes Unidos chega a US$ 36 bilhões. Além do HSBC, o Standard Chartered, com US$ 7,6 bilhões, e o Royal Bank of Scotland (RBS), com US$ 3,4 bilhões, teriam sido os maiores financiadores das companhias árabes. Completariam a lista Barclays, ABN Amro, BNP Paribas, Lloyds e Calyon.

A pior das estimativas de exposição aos Emirados foi feita pelo banco RBS. Baseado em dados do BIS, o banco afirma que instituições britânicas teriam emprestado US$ 49,5 bilhões, enquanto alemãs chegariam a US$ 11,3 bilhões, e francesas US$ 10,2 bilhões. Bancos holandeses estariam expostos em US$ 4,7 bilhões, suíços em US$ 4,3 bilhões e italianos e belgas em US$ 3,2 bilhões.

ESQUI NO DESERTO

Esses recursos eram destinados a financiar parte dos megaprojetos em Dubai, como construções de imóveis de luxo, ilhas artificiais, centros de alta tecnologia, parques temáticos, campos de golfe e até mesmo uma pista de esqui no deserto. O temor na Europa é que os problemas não sejam localizados no Dubai World. Em um regime fechado e com estatais com pouca transparência, as suspeitas agora são de que outros setores também estejam afetados.

A turbulência é ainda um teste para o sistema financeiro internacional, que acreditava estar saindo da crise e voltando à normalidade. As linhas de créditos começaram a ser restabelecidas e bancos chegaram a se desvencilhar dos apoios dados há um ano por governos.

Nos últimos oito meses, as bolsas subiram, muitos países anunciaram o fim da recessão e havia até euforia em países emergentes, como o Brasil. Mas também havia o receio que a crise poderia voltar, com o anúncio de algum prejuízo bilionário ou quebra de um banco.

A crise de Dubai fortaleceu esse medo de recaída, numa econômica global ainda frágil. O terremoto do Oriente Médio poderia dificultar o acesso de países emergentes a créditos e um novo recuo dos bancos .

Para tentar acalmar os mercados, a família real de Dubai garantiu ontem que o pacote de socorro tinha sido cuidadosamente planejado. Ahmed bin Saeed al-Maktoum, o xeque que controla as finanças do país, insistiu que o governo tinha um plano para garantir que o impacto fosse o menor possível. Mas o que assustou a muitos foi o fato de que Dubai fez uma espécie de "confissão pública mundial" dos problemas.

As autoridades monetárias das maiores economias da União Europeia vieram a público ontem garantir que o temor de moratória em Dubai não representa risco sistêmico aos bancos do bloco. Ontem, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, tentou garantir que o sistema financeiro internacional resistiria ao novo choque. "Vamos ver que o impacto não será como os problemas que já tivemos de lidar", disse ele.

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