Banda usou sinalizador para ambiente externo em boate do RS

O sinalizador usado durante um show na boate que pegou fogo matando 234 pessoas em Santa Maria não era para uso interno, disse a polícia nesta terça-feira, mesmo dia em que autoridades revisaram o número de mortos na tragédia e em que familiares das vítimas fizeram uma manifestação responsabilizando agentes públicos pelo desastre.

ANA FLOR, Reuters

29 de janeiro de 2013 | 20h45

A Polícia Civil do Rio Grande do Sul disse ter chegado à loja na qual integrantes da banda Gurizada Fandangueira compraram o sinalizador para ser usado na apresentação na boate Kiss e comprovou que o artefato era apenas para uso externo, e não em ambientes fechados.

A escolha se deu, de acordo com a polícia, por conta da diferença de preço. Enquanto o valor do artefato externo era de 2,50 reais, o sinalizador adequado para uso interno custava 70 reais.

A investigação encontrou uma série de outras irregularidades, como alvarás vencidos, extintores falsificados ou vencidos, o tamanho pequeno da porta do estabelecimento e a superlotação.

"Nós vamos provar que eles tinham mais gente do que deveriam. Não sei como, mas nós vamos provar", disse o delegado Marcelo Arigony, responsável pelo inquérito policial, em entrevista coletiva. "Por tudo o que eu digo, qualquer criança vê que a casa não tinha condições de funcionar".

A entrevista coletiva chegou a ser interrompida por cerca de 100 manifestantes, entre parentes e amigos das vítimas da tragédia, que pediram em cartazes o impeachment do prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB), e chamaram ele e o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), de "omissos".

"Não foi uma fatalidade", disse um dos manifestantes usando um megafone.

Os familiares das vítimas de Santa Maria lembraram um incêndio semelhante ocorrido em uma boate na Argentina que matou quase 200 pessoas em 2004 e que levou à destituição do então prefeito de Buenos Aires.

Também nesta terça-feira, o Instituto Geral de Perícias (IGP) gaúcho revisou o número de mortos para 234, pois três pessoas que morreram ainda não tinham sido incluídas na lista de mortos. A maioria das vítimas, jovens universitários, morreu asfixiada pela fumaça tóxica do isolamento acústico da boate, que pegou fogo ao entrar em contato com uma faísca do sinalizador.

Por causa da tragédia em Santa Maria, a segunda maior provocada por um incêndio na história do país, atrás somente do incêndio em um circo em Niterói, em 1961, que deixou mais de 500 mortos, 122 pessoas ainda estavam hospitalizadas, sendo 88 em estado grave, segundo a Secretaria de Saúde do Estado. Dessas, 83 respiravam com ajuda de aparelhos.

Após o desastre na cidade gaúcha, que teve repercussões no mundo todo, a fiscalização de boates e casas noturnas de todo o país foi intensificada.

Em Manaus, a prefeitura já fechou 17 boates e prometeu realizar até o fim da semana uma varredura em 108 estabelecimentos do município. Em Americana, interior de São Paulo, a prefeitura cancelou todos os alvarás de funcionamento dessas casas e se reunirá com proprietários para garantir o cumprimento das normas.

Medidas similares foram adotadas em Salvador, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Niterói. Em São Paulo, o governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB), anunciou o início de uma operação para fiscalizar locais que abrigam eventos com grandes aglomerações.

"Todas as casas noturnas com mais de mil metros quadrados serão vistoriadas, e depois todas as demais", garantiu o governador.

O presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS), criou nesta terça-feira uma comissão externa com sete deputados para acompanhar as investigações do desastre.

A comissão, que será coordenada pelo deputado Paulo Pimenta (PT-RS), também terá de analisar os projetos que tramitam no Congresso e propor uma legislação federal que regulamente as exigências para funcionamento de casas noturnas e realização de eventos.

CÓDIGO ÚNICO

A unificação das normas de prevenção a incêndios é defendida por especialistas, já que cada um dos mais de 5 mil municípios do país tem suas próprias regras próprias, o que dificulta o seu cumprimento.

Os especialistas também apontaram falhas generalizadas na fiscalização em todo o país, o que, segundo eles, também contribuíram para as mortes em Santa Maria.

"A gente viu muitos profissionais falando que o problema naquele estabelecimento é que tinha superlotação e que foi usado um material pirotécnico. Não foi só isso", disse Alexandre Botelho, diretor da área de consultoria em gestão de riscos da Aon, empresa que atua nas áreas de gestão de riscos e seguros.

"A saída de emergência era inapropriada para o número de pessoas, só tinha uma, e a questão do material combustível (usado no revestimento acústico) que nem foi mencionada pelos profissionais dos Bombeiros."

(Reportagem adicional de Maria Carolina Marcello e Jeferson Ribeiro em Brasília; e de Eduardo Simões em São Paulo)

Mais conteúdo sobre:
GERALINCENDIORSCONSOLIDA*

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.